2011: Ceremonials – Florence and the Machine

Por: Renan Pereira

O talento de Florence Welch despertou para o mundo em 2009, com o lançamento do álbum “Lungs”, sua estreia, um disco perfeitamente imperfeito… Ora, mas como assim? Muitas vezes, de nada adianta estrear com um grande álbum, uma obra-prima, e aí já esgotar todas as forças; muitos artistas já tiveram estreias incríveis, mas tão incríveis que seus trabalhos posteriores se mostraram totalmente incapazes de trazer algo realmente relevante a mais. É claro que, quanto mais fenomenal é uma estreia, melhor, mas “Lungs”, apesar de passar longe de ser uma obra-prima, não poderia ser melhor. Este foi um álbum que nos apresentou uma cantora talentosa, com boas condições para compor grandes canções, mas que se mostrou deliciosamente incerto; ora pendia para algo mais ligado ao clássico, buscando belas harmonias e arranjos luxuosos, e ora queria ser mais simples, mais pop. Com “Lungs”, era impossível rotular Florence and the Machine, pois, procurando por um espaço ao sol, Florence decidiu atirar em vários alvos. Nem todos os tiros foram realmente certeiros, mas pelo menos ficou a sensação de que todos foram bem dados; ela estava começando, e julgando pelo resultado final, tinha tudo para virar uma grande atiradora.

Então, eis que em 2011, Florence and the Machine chega atirando com mais experiência, mais calibrada, e em uma quantidade certa de alvos, de uma forma que se dê conta de atirar muito bem em todos. Em suma, em “Ceremonials”, sua competência evoluiu, suas ideias ficaram mais concretas, e foi possível a construção de um álbum pop que traz algo a mais do que a grande maioria em seu gênero; muitas vezes, há alguns ótimos singles, e o restante são músicas apenas para fazer o tempo passar. “Ceremonials” não tem somente bons singles, mas um bom conjunto de canções, onde nenhuma chega a encher lingüiça. Em resumo, é um álbum conciso e consistente, e que apesar de alguns exageros, dá a Florence and the Machine o trabalho que se esperava após a estreia com “Lungs”.

Paul Epworth, o premiado produtor de “21”, da Adele, aparece como um dos grandes gurus de “Ceremonials”, assim como já havia sido com o álbum “Lungs”; sua colaboração é de alto nível, e a qualidade de sua produção é indiscutível. Este é um álbum que soa luxuoso, com órgão, harpas, violinos, coros, melodias celtas e alguns bons toques de obscuridade. Um competente piano sempre está ao fundo, e a bateria é algo especialmente forte, fazendo as músicas soarem muito mais interessantes do que se as batidas ficassem por conta de sintetizadores. Tudo está certinho, no seu lugar, e procurando, muito mais do que fazer sucesso, construir um som artístico.

“Only If for a Night” é a primeira faixa, e já explora harmonias ascendentes, harpas, pandeiros, um forte coro, vocais empilhados e reverbs. O ouvinte provavelmente sentirá neste álbum sempre um toquinho de um sentimento mais obscuro, sombrio, com algumas atormentações interessantes. Florence Welch já foi disléxica, dismétrica, já sofreu de depressão e insônia, e não deve se esperar dela algo pouco intenso.

As letras de “Ceremonials” também são interessantes demais, e a de “Shake It Out”, o grande single, segue esta linha; com um vocal sentimental, a música explora uma inquietação, e contém um refrão especialmente poderoso. “What the Water Gave Me” pode não ser uma boa audição para pessoas que não sabem nadar, pois trata de afogamento (foi inspirada pela morte da escritora Virginia Woolf ); mas até os que não tem na natação um grande talento devem considerá-la uma faixa poderosa, cujo início passa uma falsa impressão de calmaria, que logo cresce para o sentimento real da canção: o sofrimento.

“Never Let Me Go” é mais uma faixa competente, com um refrão grudento, e pode ser descrita como uma mistura de Adele e Kate Bush. Uma das mais adoráveis é, com certeza, a belíssima “Breaking Down”, que contém uma melodia fenomenal, meiga e sensível, muito agradável para ouvintes sedentos por algo mais tranquilo. Já “Lover to Lover” é um explosão dançante, uma música pop de primeira qualidade, dinâmica e contagiante, contando com um piano poderoso.

Sentimentos mais densos e tensos voltam em “No Light, No Light”, outro bom single, com potencial, com uma letra poética e grudenta. É legal poder ouvir músicas que conseguem medir muito bem o artístico e o comercial, e Florence Welch e Paul Epworth acertaram muito bem nisso; o álbum foi bem visto pela crítica e pelo público, algo cada vez mais difícil de se conquistar. “Seven Devils” é uma atormentação, uma música com um nível de tensão muito alto, até um pouco exagerado, sendo quase realmente monstruosa, e soando como um boa trilha-sonora para um filme de terror; não é uma música que agrada aos ouvidos mais despreparados, mas com o tempo e as seguidas audições vai se tornando uma faixa até interessante. Um espetáculo de bateria é ouvido em “Heartlines”, que também está longe de ser uma das melhores do álbum, onde certos exageros são mais uma vez cometidos; mas, para os fins, é uma canção válida.

“Spectrum” inicia parecendo-se como mais uma canção somente obscura, mas no refrão há um grande crescimento, para se tornar um número bastante dançante – o que surpreende de forma positiva, visto que, mesmo quando se chega em sua parte final, “Ceremonials” prova ainda poder apresentar coisas novas. Em “All This and Heaven Too”, uma canção calma, há perguntas retóricas (e irrespondíveis) que Florence faz sobre o conceito de amor; é uma canção doce, bonita, bastante positiva. “Leave My Body”, a última faixa, não é uma grande canção, não está no nível da maioria das músicas do álbum, mas não deixa de ser um bom encerramento para “Ceremonials”; até porque, antes mesmo das faixas finais, a qualidade do álbum já estava atestada. Se trata de uma ótima gravação, forte e competente, onde Florence exprime seus sentimentos, suas ideias e seus medos, contando com melodias talentosas e com uma grande produção, que faz um dos melhores espetáculos instrumentais pop dos últimos tempos. Não basta ter luxo, é necessário usá-lo de forma correta; e Epworth sabe como fazer.

Florence Welch é uma moça talentosa, dona de uma voz interessante e de um bom talento para composições, e bastante antenada, tanto em coisas do passado, como harpas, violinos e elementos de música celta, como em coisas novas, sabendo como se fazer entender para a geração atual (aliás, a sua geração), mesmo sendo tão ligada em renascentismo. O álbum é certeiro, segue a sua lógica, tem personalidade, e faz com que Florence and the Machine continue sua escalada, melhorando cada vez mais, e se destaque como um dos projetos mais elogiados da cena atual.

NOTA: 8,2

Track List:

01. Only If for a Night (Welch/Epworth) [04:58]

02. Shake It Out (Welch/Epworth) [04:37]

03. What the Water Gave Me (Welch/White) [05:33]

04. Never Let Me Go (Welch/Epworth) [04:31]

05. Breaking Down (Welch) [03:49]

06. Lover to Lover (Welch) [04:02]

07. No Light, No Light (Welch/Summers) [04:34]

08. Seven Devils (Welch/Epworth) [05:03]

09. Heartlines (Welch/Epworth) [05:01]

10. Spectrum (Welch/Epworth) [05:11]

11. All This and Heaven Too (Welch/Summers) [04:05]

12. Leave My Body (Welch/Epworth) [04:34]

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