1987: Appetite for Destruction – Guns N’ Roses

Em algumas ocasiões, as coisas surgem praticamente do nada. Nos anos oitenta, parecia não haver mais espaço para aquele hard rock clássico que foi uma das marcas da década de setenta. O Led Zeppelin havia acabado após a morte de John Bonham, o Aerosmith não fazia mais o sucesso de outrora, e bandas como Queen e Kiss faziam coisas mais comercias do que realmente artísticas. O heavy metal do Iron Maiden e as porradas velozes do Metallica tinham conquistado um grande espaço, tomando o lugar das bandas antigas no que diz respeito a rock pesado, e parecia que cada vez mais o hard rock se resumia a verdadeiros lampejos: Van Halen e Bon Jovi com muitos teclados (o que não significa algo ruim, mas simplesmente se afastando do básico), e Whitesnake com muito amor para dar. Em meio a isso tudo, o Guns N’ Roses, que tinha tudo para ser uma banda farofeira, acabou criando um dos melhores álbuns de hard rock da história, e logo nesses anos oitenta, quem diria.

Pense em cinco rapazes pobres, donos de uma vida errante e fígados de aço, no cenário underground de Los Angeles nos anos oitenta. Um fã do Keith Richards, um vocalista com voz diferente e engraçado no palco, um baterista sorridente, um baixista punk de Seattle e um bluseiro com cabelo cacheado saliente. Vamos falar a verdade, isso tinha tudo para dar errado… Como uma banda com essa formação poderia fazer frente a um U2, por exemplo?

O fato é que a coisa aconteceu. Pessoas tão estranhas e tão diferentes entre si acabaram se entendendo perfeitamente, em um entrosamento absurdo. Conseguiram reunir todas as influências que cada um trazia, com cada um oferecendo o seu melhor e mais um pouco, utilizando de muita criatividade para falar da vida pouco atraente que levavam. E o melhor de tudo é que, apesar de visualmente farofeiros, eles utilizaram um elaborado rock clássico, com muitas influências de blues, letras variadas, melodias potentes e, principalmente, com muita atitude. Se, naquela época, o politicamente correto é o que fazia as menininhas suspirarem, o Guns veio para mudar o cenário e ser a trilha sonora de uma nova geração; os suspiros se dirigiriam para cabelos longos e shortinhos apertados.

Nesse caso, “Welcome to the Jungle” é a música perfeita para uma abertura, para ser a primeira faixa do primeiro álbum; além de ser um retrato do que os integrantes viviam na cidade grande, é uma ótima apresentação da banda, com uma introdução sensacional, que se transforma em um instrumental hard rock impecável, digno de uma das melhores canções de rock pesado de todos os tempos. Outro fato interessante em “Appetite for Destruction” é a simplicidade, tanto das letras quanto do instrumental, e essa talvez seja a grande graça da coisa; quando se apostava muito em sofisticação, no luxo de sintetizadores e em letras minunciosamente estudadas, o Guns chega para mostrar quão bom e atraente podia ainda ser o rock puro, onde as coisas não são forçadas, e simplesmente acontecem.

“It’s So Easy” é uma música do baixista Duff McKagan, e fala como os integrantes, mesmo sem dinheiro, tinham alguns ganchos com mulheres (obviamente, a relação não era assim tão romântica); também foi o primeiro single lançado pela banda, e contém mais um instrumental pesado e arrebatador, com Axl Rose dividindo os vocais com Duff. Em um álbum onde as coisas vão acontecendo naturalmente, alguma culpa o álcool deve ter, e “Nightrain” dá provas disto; a canção é um grande hino à embriaguez, ao vinho barato, e contém mais um instrumental sensacional, bastante dinâmico, com uma ótima interação entre os grandes Slash e Izzy Stradlin, que dão um verdadeiro espetáculo nas guitarras. “Out Ta Get Me” é outro espetáculo de riffs, mas deve ser dito que, em “Appetite for Destruction”, todos os instrumentos e todos os membros tinham a mesma importância – a liderança de Axl Rose ainda não era tão gritante, e até mesmo Steven Adler, um baterista com pouca técnica, teve um grande papel na construção da sonoridade do álbum.

A dançante “Mr. Brownstone” fala de drogas, visto que “brownstone” é uma gíria para heroína; esta é mais uma grande canção, escrita por Slash e Stradlin, e mostra como era um dia comum na vida dos guitarristas. Álcool, drogas, sexo… e muito rock n’ roll, é claro! Resgatando todos antigos sentimentos do hard rock, o Guns N’ Roses, em pouco tempo, passou de uma banda pouco conhecida e cultuada apenas no cenário underground da Califórnia para um fenômeno musical de abrangência mundial; para todos, sem dúvida, foi a saída do inferno e a ida ao paraíso – mas que paraíso seria esse? A espetacular “Paradise City”, um dos grandes clássicos da banda, e a música ideal para encerrar shows, é construída sobre um pesado riff de Slash, e contém um dos solos mais enlouquecedores do rock; seus versos  “Take me down to the paradise city/Where the grass is green and the girls are pretty” são emblemáticos. “My Michelle”, que contém um instrumental mais obscuro em relação às demais faixas do álbum, fala da vida nada convencional de uma amiga da banda, chamada Michelle Young (conta a história que Axl Rose, primeiramente, tentou uma letra doce, quase romântica, mas ao ver que o resultado não seria bom, a reescreveu tentando ser o mais honesto o possível).

Um dos grandes pilares para a construção do disco foi o talentoso Izzy Stradlin, um guitarrista musicalmente muito consciente e dono de uma grande criatividade; “Think About You” é uma música de autoria exclusivamente sua, com versos mais para românticos, com grande destaque para seus últimos segundos, onde se desacelera drasticamente, e Axl Rose tem sua melhor performance vocal no álbum. “Sweet Child O’ Mine” é o grande êxito comercial da história do Guns, um rock cadenciado e radiofônico como poucos, contendo uma romântica letra escrita por Axl, com o riff inicial e o longo solo sendo as atuações mais simbólicas do guitarrista Slash; foi com esta canção, e especialmente com o seu vídeo, que o Guns se tornou um fenômeno mundial.

Depois de duas canções mais doces, a pesadíssima “You’re Crazy” surge, com um ritmo de torcer o pescoço, e enfatizando o dinamismo do álbum. “Anything Goes” é a canção mais fraca do disco, mas de jeito nenhum diminui a qualidade do “Appetite”; até porque a sensacional “Rocket Queen” chega para encerrá-lo, com arranjos instrumentais impecáveis – os gemidos de mulher incluídos durante o solo podem até ser considerados um exagero, mas de certo modo nos lembram que o disco fala sobre a vida que a banda levava naquela época. Pouca coisa em “Appetite for Destruction” é politicamente correta, mas um pouco de rebeldia é sempre bem-vinda, principalmente quando as coisas tendem a ficar cada vez mais sem graça.

Negar a importância do “Appetite” é uma maluquice; o álbum deu um novo fôlego ao rock mais puro, e foi inclusive responsável pela volta ao topo do Aerosmith, por exemplo. Com este álbum, cinco rapazes mostraram que o hard rock ainda tinha sua vez, e que não importa quem você seja e de onde você é; algumas coisas podem acontecer naturalmente de uma hora para outra, e isso pode fazer com que você, enfim, aconteça. E assim foi com o Guns N’ Roses: aconteceu.

NOTA: 9,5

Track List:

01. Welcome to the Jungle (Axl Rose/Slash) [04:34]

02. It’s So Easy (Duff McKagan/West Arkeen) [03:23]

03. Nightrain (Axl Rose/Izzy Stradlin/Slash/Duff McKagan) [04:29]

04. Out ta Get Me (Axl Rose/Izzy Stradlin/Slash) [04:25]

05. Mr. Brownstone (Izzy Stradlin/Slash) [03:49]

06. Paradise City (Axl Rose/Slash/Izzy Stradlin/Duff McKagan) [06:46]

07. My Michelle (Axl Rose/Izzy Stradlin) [03:40]

08. Think About You (Izzy Stradlin) [03:52]

09. Sweet Child O’ Mine (Axl Rose/Slash/Izzy Stradlin) [05:55]

10. You’re Crazy (Axl Rose/Izzy Stradlin/Slash) [03:17]

11. Anything Goes (Axl Rose/Izzy Stradlin/Chris Weber) [03:26]

12. Rocket Queen (Axl Rose/Slash/Duff McKagan) [06:13]

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