2012: Tramp – Sharon Van Etten

A certeza de que a magia da música nunca se findará é quando surgem novos nomes que surpreendem. Sharon Van Etten é um destes nomes, uma cantora oriunda de Nova Jersey, moradora da miscelânea que é o bairro do Brooklyn, que faz de sua sonoridade folk a força de seus trabalhos. É ainda melhor quando estes novos nomes fazem diferente, e Van Etten faz; não espere o ouvinte aquele folk-rock tradicional, de Bob Dylan ou Leonard Cohen – ela flerta com rock alternativo, e isso faz com que a sua música tenha uma personalidade única e forte. De sua personalidade, aliás, surge “Tramp”, um álbum introspectivo.

Muitos álbuns introspectivos cometem o erro de mergulhar em poços de água parada e suja, ou seja, no marasmo. Devemos lembrar que tais poços são locais ideais para a procriação dos mosquitos da dengue, e para que nenhum mal aconteça, é necessário que nada esteja tão parado, ou que pelo menos haja uma espécie de veneno. “Tramp” tem algum tipo de veneno, um bom veneno, capaz de eliminar os mosquitos da preguiça e do mais-do-mesmo, tornando o ambiente saudável e livre de contaminações. Nada também está parado; por mais que o disco seja um registro fundamentado em músicas calmas, e até certo ponto com melodias tristonhas, o dinamismo das inteligentes ideias de Sharon Van Etten torna “Tramp” um álbum excitante, onde os tranquilos riffs só são uma base para suas ótimas letras.

A amargura de Van Etten pode ser sentida. “Tramp” é mais um álbum que se apóia em temas como relacionamentos, e com um olhar negativo sobre eles; poderia soar como muitas outras tantas coisas que exploram a mesma visão, mas Van Etten consegue soar original – seu coração em pedaços pode ser compartilhado com o ouvinte, pois é provável que se sinta os sentimentos da cantora em suas músicas (pois até mesmo na capa é possível senti-los). Mas apesar de Van Etten não estar muito feliz ou descontraída, seus sentimentos amargos se mostram um entretenimento interessante, harmonicamente delicados e especialmente intensos.

A primeira faixa, a competente “Warsaw”, é já uma boa mostra do que virá: folk de qualidade, com melodias calmas e elementos indie, com alguma coisa de Beirut ou The National. Com uma primeira faixa convincente, acaba criando-se uma grande expectativa, que é atendida com excelência na próxima, “Give Out”, ainda mais sensível que a primeira, com uma melodia bela, uma letra competente e um vocal que se assemelha a muitos já feitos por Thom Yorke. “Serpents” continua a surpreender, com arranjos instrumentais de alta qualidade, que formam uma boa base para Van Etten demonstrar todos seus sentimentos. Apesar de “Tramp” se mostrar um álbum basicamente sentimental, ele não comete o erro comum de ser exagerado, passando, para a nossa sorte, longe de ares puramente sisudos.

“Kevin’s” é uma belíssima canção, capaz de dar todas as provas necessárias da grande qualidade presente nas músicas de Van Etten. Por mais que se dê muito mais destaque às letras, seu vocal também é elogiável, elegante e sereno, um dos principais pontos desta agradável audição. A mais alternativa, ou seja, a mais indie de todas, pode muito bem ser “Leonard”, mais uma faixa interessante, dinamicamente forte, mas que na primeira audição pode até estranhar. “In Line” é uma das mais tristonhas, melancólicas, mas nem por isso deixa de ser forte, contendo uma letra impecável e se destacando por ser um verdadeiro turbilhão, um furacão de sentimentos.

“Tramp” é um álbum consistente, e apesar de não ser um trabalho que possa ser considerado genial, faz Van Etten atingir um alto patamar, tornando-a um dos nomes mais emergentes do cenário folk-rock mundial. Com as igualmente boas “All I Can”, “We Are Fine” e “Magic Chords”, ela continua a conseguir o feito de demonstrar seus sentimentos francos e tristes, transformando-os em riqueza lírica e confiança (trabalhando tudo com muita sinceridade, com letras penetrantes que demonstram toda a sua personalidade).

Além de tudo, o final do álbum é certeiramente arrebatador; “Ask” se inicia normal, como uma música acústica qualquer, comum, mas vai crescendo absurdamente, apoiada pelos versos penetrantes e pelo vocal perfeitamente concreto de Van Etten. Do violão tranquilo do início da faixa anterior, chega-se à sofrida “I’m Wrong”, em que há um interessante e agradável desespero, consciente e contido. Desculpe o ouvinte se os adjetivos anteriores não são tão corretos para denotar um desespero, mas Van Etten faz com que absurdos se tornem sentimentos normais à percepção do ouvinte – e é esta funcionalidade uma das grandes graças de “Tramp”. Fugir do óbvio é algo sempre louvável.

“Joke or a Lie” é a última, e já mostra uma mulher esgotada e sombria, que quer dar acordes finais ao seu terceiro álbum; isso não é um defeito, pois lembre-se que “Tramp” é um álbum sentimental – na verdade, a atuação de Van Etten é correta em toda a gravação. Há poucos pontos negativos a serem destacados no álbum, mas para as pessoas mais impacientes, um pouco mais de dinamismo instrumental seria bem-vindo. Mas, acima de tudo, “Tramp” é liricamente impecável, certeiro quanto à sua intenção.

Trabalhos novos são sempre bem-vindos, e quando agradam são mais ainda. Quando se trata de um trabalho novo de um novo nome, a alegria dos que gostam de música é evidente, e nos faz crer que o pensamento negativo da expressão “tudo está perdido” não passa de uma bobagem absurda. Sheron Van Etten dá a certeza que novos nomes são sim capazes de construir músicas ricas, sensíveis, fortes e sinceras.

NOTA: 8,1

Track List:

01. Warsaw [02:29]

02. Give Out [04:21]

03. Serpents [03:04]

04. Kevin’s [04:04]

05. Leonard [03:50]

06. In Line [04:46]

07. All I Can [04:56]

08. We Are Fine [03:51]

09. Magic Chords [03:58]

10. Ask [03:24]

11. I’m Wrong [03:57]

12. Joke or a Lie [04:02]

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3 opiniões sobre “2012: Tramp – Sharon Van Etten”

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