1966: Aftermath – The Rolling Stones

Falar da importância dos Stones para a música é como chover no molhado. Desde os anos sessenta, eles estão agitando o mundo com seu rock de qualidade indiscutível. Mas os Rolling Stones são muito mais do que simplesmente uma banda antiga que continua na ativa; os caras, se não arquitetaram o rock, e nem ajudaram a enterrar as estacas (coube a Elvis, Little Richard, Gene Vincent, e toda aquela geração dos anos cinquenta fazê-lo), obtiveram muitos feitos como construtores do gênero: ajudaram a obra a subir, e muito mais do que isso, pois tiveram também um grande trabalho nos acabamentos. Mick Jagger, Keith Richards, e companhia limitada, podem muito bem ser parte do sumo desta grande obra que é o rock; são as pedras, ou melhor, as pedras rolantes.

Em 1966 eles já eram gigantes. Pra falar a verdade, desde a estreia da banda, em 1964, eles já eram um sucesso; mas foi com “(I Can’t Get No) Satisfaction”, poderosíssimo single lançado em 1965, que eles começaram a se tornar uma lenda. O sucesso absurdo da banda, tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, levou-os inclusive a rivalizar com os Beatles pelo topo das paradas – o que é um feito monstruoso. E assim como os Fab Four, os Stones começavam a se tornar ícones da cultura, e também igualmente aos Beatles, a fama só os fez ter vontade de crescer cada vez mais. “Aftermath” está aí para provar.

Naquele tempo, apesar de 1967 ser apenas o ano seguinte, o psicodelismo já era uma tendência muito forte – “Revolver” que o diga. E os Stones resolveram também apostar suas fichas nessa vertente. Sim, eles sempre foram muito mais reconhecidos por seu rock mais cru, mais roots, com grandes influências de blues e R&B; mas a fase mais psicodélica do som dos Rolling Stones também é ótima, apesar de mais desconhecida pelo grande público. E o melhor de tudo é que eles conseguiram adentrar no psicodelismo sem perder a identidade de seu som (assim como outras grandes bandas que tiveram êxito naqueles anos, como The Who, The Kinks, The Beach Boys, e é claro, The Beatles). “Aftermath” e “Between the Buttons” formam uma ótima ponte entre o puro rock de “Out of Our Heads” e o experimentalismo alucinógeno de “Their Satanic Majesties Request”.

A cada álbum lançado, o som dos Stones crescia, e assim também foi com “Aftermath”, apresentando ótimas evoluções técnicas quanto ao álbum anterior, “Out of Our Heads”. A mais gritante dessas evoluções foi o tratamento acústico, com uma produção caprichada, muito mais elaborada e com um som muito mais polido em comparação com os trabalhos anteriores, que tinham a simplicidade como principal fachada. Ao ouvir a belíssima versão remasterizada deste álbum, a clareza do instrumental se torna ainda mais evidente, e podemos apreciar quão vivo é o som da banda, mesmo tanto tempo depois.

“Mother’s Little Helper” é a primeira faixa do álbum, trazendo acordes folk, uma atuação impecável de baixo, e muito criativos riffs orientais, se assemelhando ao som de uma cítara; é também uma das primeiras a falar abertamente da utilização indevida e exagerada de medicamentos – olha só, algo bastante atual, não? “Stupid Girl” traz pensamentos desagradáveis acerca das mulheres, uma música que serve como desabafo para homens sexualmente frustrados; com um instrumental cativante, cheio de energia, é uma ótima canção, digna de ser faixa do ótimo “Aftermath”. “Lady Jane” também é uma beleza, contendo um maravilhoso instrumental acústico, composto por belíssimos acordes, que se mostram como uma massagem relaxante aos ouvidos; a atuação de Mick Jagger nos vocais também é digna de aplausos.

A polêmica “Under My Thumb”, segundo o próprio Jagger, é uma brincadeira, mas acabou sendo considerada uma canção anti-feminista, já que compara mulheres a animais de estimação; a música em si é uma boa mostra dos anos psicodélicos dos Stones, com o baixo fuzz de Wyman e os riffs de marimba de Brian Jones, e obviamente, com a marcante performance vocal de Jagger, perfazendo uma canção ótima e especialmente forte. Já a quinta, “Doncha Bother Me”, é uma canção com um instrumental mais denso, amparado pelos ótimos riffs de Richards, e que se mostra bastante competente, contendo uma veia bem puxada ao blues. A longa “Goin’ Home”, com mais de onze minutos de duração (uma das primeiras músicas de rock realmente longas), é que fecha o primeiro lado do LP original, trazendo também todas as influências blues da banda, com uma letra bastante normal, falando de um relacionamento, e se caracterizando por uma grande jam, com atuação descontraída de Richards e um bom destaque para a bateria de Charlie Watts, que cresce à medida em que o poder do instrumental vai aumentando.

“Flight 505” é um grande rock, caracterizado por ser estruturalmente forte, com uma competente linha de bateria, riffs pesados de baixo e a descontraída guitarra de Richards sempre dando um agradável espetáculo. “High and Dry” tem como destaque uma linha de baixo pulsante e simples, com uma ótima linha de bateria e riffs que novamente pendem para o blues. E assim mesmo é Aftermath: o casamento entre as antigas influências dos Rolling Stones e os novos ares do rock psicodélico. E “Out of Time” é especialmente psicodélica, com órgão, piano, marimba, sinos, e tudo a que se tem direito, incluindo uma pomposa linha de baixo de Bill Wyman e um refrão grudento; em suma, mais uma grande canção.

“It’s Not Easy” tem um instrumental mais pesado, com riffs mais velozes e uma estrutura mais bruta, menos sutil, que torna a faixa um ótimo número de hard rock. “I Am Waiting” é provavelmente a canção mais surpreendente dos Stones até então, e causa uma deliciosa diferença em relação à faixa anterior; enquanto a décima tratava de um rock mais puro, mais pesado, a décima-primeira se caracteriza por ser uma música sutilmente trabalhada, contendo arranjos elaboradíssimos.

Porém, a grande agradável surpresa vem mesmo em “Take It or Leave It”, com brilhantes arranjos construídos pelo fantástico Brian Jones, contendo todos os ares e sentimentos do “Summer of Love”; é uma maravilha de música, realmente linda. “Think” também tem destaques nos arranjos, com uma incrível execução de sintetizador, novamente por parte de Brian Jones, que vai tornando um álbum, que se iniciou impecável e consistente, incrível e surpreendente em seu final. “What to Do” é, infelizmente, a última faixa, também transbordando de elementos psicodélicos, dessa vez com um arranjo mais simples, mas nem por isso menos competentes; a canção é um espetáculo instrumental, com uma estrutura forte e dinâmica, encerrando o “Aftermath” da melhor forma possível. Como bônus, ainda há os singles lançados na época, incluindo a fantástica “Paint It Black”.

Este não é o melhor álbum de 1966, nem da era do psicodelismo e sequer dos Rolling Stones; mas é um trabalho incrível. Nos traz um pouco dos anos em que os Stones embarcavam na colorida e maluca viagem de elaborar o seu som, fazendo algo mais sofisticado e com prioridade nos arranjos. É, sem dúvida, um registro histórico, e acima de tudo um grande registro. Consistente do início ao fim, traz toda a qualidade instrumental da banda, numa época em que todos os integrantes tinham a mesma importância, apesar de Jagger e Richards dividirem as composições. Provavelmente, aliás, o grande guru desta evolução musical tenha sido o talentosíssimo Brian Jones, o “mais músico” dentre todos os integrantes, um multi-instrumentista, responsável pelas composições instrumentais mais elaboradas da banda… Enfim, um quase-gênio.

Como é bom ouvir música feita com talento, artisticamente consciente, e como é bom ter uma gravação tão agradável e pulsante como o “Aftermath”… Um álbum que, apesar do passar dos anos, soa tão saboroso e vívido quanto uma cereja molhada pelo orvalho de uma manhã.

NOTA: 9,6

Track List: (todas as faixas compostas por Jagger/Richards)

01. Mother’s Little Helper [02:45]

02. Stupid Girl [02:56]

03. Lady Jane [03:08]

04. Under My Thumb [03:41]

05. Doncha Bother Me [02:41]

06. Goin’ Home [11:13]

07. Flight 505 [03:57]

08. High and Dry [03:08]

09. Out of Time [05:37]

10. It’s Not Easy [02:56]

11. I Am Waiting [03:11]

12. Take It or Leave It [02:47]

13. Think [03:09]

14. What to Do [02:32]

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