2003: Let’s Roll – Etta James

É chegada a hora de dar um espaço ao blues, fazendo um tributo à fantástica Etta James, uma das maiores vocalistas da história do gênero. Sua importância é observada só com a citação de artistas que ela influenciou: nomes como Janis Joplin, The Rolling Stones, Rod Stewart, Elkie Brooks, Bonnie Raitt, e outros mais recentes, como Christina Aguilera, Amy Winehouse, Paloma Faith, Joss Stone, Hayley Williams e Adele. Ou seja, seu nome foi importante para várias gerações, para músicos de diferentes estilos, e é provável (e desejável) que ela ainda continue a influenciar novos nomes.

Etta James, porém, nunca foi uma artista exclusiva do blues. Iniciou sua carreira musical como uma cantora de R&B, de uma vertente chamada doo wop, e passeou também pelo pop tradicional e o jazz. Afinal, sua voz sempre foi muito habilidosa, e cantar outros estilos nunca foi uma dificuldade para ela. Mas, foi no blues que ela teve seus trabalhos mais marcantes, e “Let’s Roll” foi um de seus melhores trabalhos em estúdio (se bem que era ao-vivo que ela dava um maior espetáculo).

“Somebody to Love” é a primeira faixa, e surge como um blues-rock; o mais legal de tudo isso é que só para lá dos seus sessenta anos que Etta James começou a flertar com o rock, e alguns dos instrumentais de “Let’s Roll” realmente são orientados nesse estilo; a canção é ótima, e a performance vocal é sincera – como, aliás, sempre foi. “The Blues Is My Business” é outra canção muito agradável, e vem falando que trabalhar é bom; realmente, trabalhos como “Let’s Roll” são altamente deleitosos, sinceros, talentosos e bem-produzidos. O que se ouve no álbum é um grande conjunto de canções, um consistente repertório blues, apoiados por instrumentais impecáveis e o vocal magistral de Etta James, trazendo sempre muito feeling e consciência musical.

“Leap of Faith” traz Etta em uma atuação poderosa, que às vezes soa deliciosamente despreocupada, parecendo às vezes ser tudo muito simples ou muito fácil – o que, definitivamente, não é; poucas intérpretes tiveram um desempenho tão certeiro no blues quanto Etta James. “Strongest Weakness” é mais uma canção orientada mais pelos lados do rock, se bem que, em todo “Let’s Roll”, apesar dos flertes, as canções blues são genuínas, com todos os elementos tradicionais do gênero. Não é fácil flertar assim e ainda permanecer fiel às tradições, e aplausos devem ser dados ao produtores e ao guitarrista Bobby Murray, principal nome da banda que a acompanhou neste trabalho. “Wayward Saints of Memphis” leva-nos a um instrumental blues mais tradicional, e é tão agradável quanto aos anteriores.

“Lie No Better” é uma das melhores faixas do álbum, dinâmica, muito bem construída, e que contém um instrumental maravilhoso, que dá todas as bases para que James perfaça mais um vocal que se encaixa perfeitamente à canção. A sétima é “Trust Yourself”, uma música que não é brilhante, mas é forte, com uma estrutura firme e que continua a levar o álbum por caminhos consistentes. “A Change Is Gonna Do Me Good” é uma canção mais sentimental, puxando mais para a música country, e certamente é um grande destaque do “Let’s Roll”, com uma belíssima e tocante performance de Etta James.

“Old Weakness” é uma das músicas mais impecáveis do álbum, sendo um blues arrebatador, como manda o figurino, e mostrando-nos quão fascinante e sincera pode ser a música de raiz. Mas, é em “Stacked Deck”, a faixa mais longa do disco, com oito minutos, que temos a mais brilhante atuação de Etta James no “Let’s Roll”, em um blues calmo e com estrutura bem tradicional (a música é uma verdadeira aula de interpretação vocal para cantoras, e é bom que tanta gente se diga influenciada artisticamente por James). A corajosa “On the 7th Day” mostra que sempre há espaço para coisas novas dentro do blues, mesmo se tratando de um estilo onde é a tradição que manda, pois pode soar incrível e sem arranhar seus tradicionais preceitos – a canção é uma ponte entre o blues e o R&B, o encontro das vertentes preferidas de James, e conta com um solo de guitarra maravilhoso.

“Let’s Roll” não está entre os melhores álbuns de blues da história, mas é um daqueles álbuns em que não se ouve nenhuma música simplesmente boa – todas são ótimas e consistentes. “Please, No More” é uma ótima faixa final, se bem que o sentimento mais recorrente para o momento seja o desejo de que o álbum continue por mais algumas dezenas de minutos, ou até mesmo algumas horas. Afinal, ele é um deleite para nossos ouvidos, boa música feita com competência e interpretada com categoria.

Não há uma homenagem mais certeira para Etta James do que saborear seus trabalhos; e se tratando de “Let’s Roll” a homenagem é, acima de tudo, uma ode à música feita com a alma. É realmente uma pena que um nome tão importante quanto Etta James tenha partido, mas, para nossa sorte, suas grandes interpretações e sua característica sinceridade musical continuarão vivas em suas gravações. Que bom, pois numa época onde tantas músicas artificiais e forçadas são realizadas, é um prazer ter em mãos um dos melhores trabalhos de uma das vozes mais marcantes da história da música.

NOTA: 8,4

Track List:

01. Somebody to Love (McClinton/Nicholson) [05:58]

02. The Blues Is My Business (Bowe/Cerney) [03:33]

03. Leap of Faith (Clarke/Nicholson) [04:00]

04. Strongest Weakness (Bramlett/Nicholson) [04:53]

05. Wayward Saints of Memphis (Bowe/McClinton) [05:42]

06. Lie No Better (Nicholson) [03:31]

07. Trust Yourself (Bowe/G. Champion) [04:45]

08. A Change Is Gonna Do Me Good (Al Anderson/DiPiero) [05:32]

09. Old Weakness (Nicholson) [03:12]

10. Stacked Deck (Billy Wright) [08:01]

11. On the 7th Day (Bowe/Kostas) [05:01]

12. Please, No More (David Egan) [04:40]

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