2012: Kisses on the Bottom – Paul McCartney

Sir James Paul McCartney, o gênio, a lenda. Durante cinquenta anos, o mundo se acostumou a vê-lo e ouvi-lo como um compositor incrível e um instrumentista completo. Mas eis que, em seu novo álbum, ele nos brinda com clássicos do jazz americano, e tendo a voz como único instrumento a perfazer. É estranho ver Paul com um álbum de covers e apenas cantando, sem tocar nenhum instrumento; certamente, o “Kisses on the Bottom” é algo totalmente diferente do que um dia ele já fez, e ótimo ver como ele continua a se reinventar aos 70 anos. Elegância, porém, é algo que Paul sempre teve, e em “Kisses on the Bottom” este é um adjetivo marcante.

O premiado “The Artist” mostrou-nos que, mesmo no século XXI, um filme mudo e em preto-e-branco pode ser cativante; uma volta ao tempo, dispensando a tecnologia e focando apenas no artístico é algo corajoso, digno de elogios. “Kisses on the Bottom” também soa preto-e-branco, nostálgico, produzido para se assemelhar ao que se fazia nas décadas de trinta e quarenta quanto à engenharia de som. Realmente, o álbum é uma volta ao tempo, e ter Paul McCartney como comandante desta odisseia é a certeza de uma boa viagem.

Alguns podem julgar a ideia de Paul de regravar sucessos do passado como algo fácil, pouco trabalhoso e até oportunista, pois tanto o seu nome quanto a maioria das canções de “Kisses on the Bottom” são ideias já há muito tempo prontas. Mas estes devem desconhecer totalmente o que Paul realmente deseja com o álbum, que é levar aos ouvintes algumas das canções que o inspiraram em sua vasta e riquíssima carreira. Sempre se soube de que os Beatles gostavam muito de rockabilly, Chuck Berry, Roy Orbison e Elvis Presley, mas saber que o jazz clássico foi a principal influência para que Paul começasse a fazer música não chega a ser surpreendente, mas é um quantitativo novo a uma antiga ideia. Enfim, aqui estão as músicas que sempre inspiraram Paul McCartney.

De “I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter”, a primeira faixa, é que vem o título do álbum, retirado de um verso da canção; a música já foi gravada por Sinatra, Bing Crosby, Count Basie, Nat King Cole, e mais uma leva de artistas, sendo assim um clássico da música popular americana (sua versão original é dos anos trinta, mas as gravações mais conhecidas são dos anos cinquenta). A deliciosa “Home (When Shadows Fall)” é uma coisa linda de se ouvir, e mostra que, se Paul não é mais o vocalista de outrora, perdendo muito do seu alcance, sua voz ainda é capaz de emocionar.

“It’s Only a Paper Moon” é outro clássico do jazz, utilizado ao longo dos anos, inclusive, para números de improvisação; sendo uma canção que fez sucesso nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, é provável que Paul a ouvisse quando era apenas um garotinho, o pequeno James; a faixa é mais um easy listening agradável e elegante, sendo a utilização desta fórmula a grande marca do “Kisses on the Bottom”. “More I Cannot Wish You”, “The Glory of Love” e “We Three (My Echo, My Shadow and Me)” são canções românticas, um prato cheio para a interpretação de Paul, que sempre foi um grande baladeiro, enquanto “Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive” é mais animada, e aliás, mais um grande clássico, que fez sucesso nas vozes de Bing Crosby e Ella Fitzgerald.

“Always” é mais uma belíssima canção, cuja interpretação, além do jazz, já andou passeando pelo folk com Leonard Cohen e pelo R&B com Diana Ross e o seu grupo The Supremes; a interpretação do roqueiro ocasional Paul McCartney é uma maravilha para nossos ouvidos, um verdadeiro carinho vocal, singelo e emocionante. Singelo, aliás, é o principal adjetivo para “My Very Good Friend the Milkman”, cujo título já nos dá mostras de sua beleza nostálgica.

“Blackbird, fly…” é um verso que nos lembra de uma das mais famosas e bucólicas composições de Paul, e é provável que de “Bye Bye Blackbird” tenha vindo a inspiração; o próprio Paul disse que esta (assim como outras músicas do álbum) é uma canção que ele costumava cantar com seus próximos em reuniões familiares. “Get Yourself Another Fool” é mais uma linda canção, melódica, onde o vocal de Paul é convidado a passear por um estilo e uma tonalidade totalmente diferente da costumeira do ex-Beatle. “The Inch Worm” é mais uma canção popular americana, sendo esta especialmente entre as crianças, devido ao refrão aritmético; dá até pra imaginar o pequeno James Paul cantarolando-a enquanto pensava na lição de matemática.

É fantástico poder ter uma coleção das canções preferidas de Paul, músicas que marcaram a sua vida e o construíram como artista. E é melhor ainda ter o próprio as interpretando. Mas deixemos McCartney um pouquinho de lado, para elogiar a fantástica banda que o acompanhou durante o álbum; desde a bateria, passando pelo piano e os violinos, os instrumentos fazem um verdadeiro espetáculo, com arranjos complexos e maravilhosos – em suma, um instrumental jazz impecável.

Mas, espera aí… Quem escreve esse texto deve estar com amnésia, pois se esqueceu de duas faixas; as duas músicas do Paul. É que deve se separar o Paul do James, a lenda do homem. As regravações são músicas do James, que ele ouvia quando jovenzinho e ainda anda cantarolando quando está em casa, tomando uma xícara de chá com pantufas nos pés. Mas há também o Sir Paul McCartney, o mito, um dos músicos mais consagrados da história, e duas canções inéditas e de sua autoria aparecem, para fazer com que o álbum  realmente mescle o James com o Paul; com isso, o álbum se mostra introspectivo, e nos faz visitar (pelo menos um pouco) a intimidade de McCartney.

“My Valentine” é a oitava faixa, e além da bela e romântica letra, e de mais um consistente acompanhamento da banda, há a participação de Eric Clapton na guitarra, que dá sempre muito sentimento às canções. “Only Our Hearts” é mais uma espetacular composição de Paul, romântica e sensível, e se, em “My Valentine”, houve a participação de uma lenda, em “Only Our Hearts” há a participação mais do que especial de Stevie Wonder, revivendo o dueto do sucesso “Ebony and Ivory”, mas desta vez apenas com sua gaita de boca; uma participação rápida, mas marcante. A presença de duas músicas inéditas, em um álbum quase inteiramente de covers mantém o “Kisses on the Bottom” consistente, pois apesar da distância destas inéditas de sessenta, setenta anos, em relação às demais, tanto “My Valentine” quanto “Only Our Hearts” mostram uma aproximação ao clássico.

“Kisses on the Bottom” é belíssimo, consistente e sentimental, e faz com que a gente se aproxime mais da pessoa que há por trás da lenda. É uma gravação muito interessante, pois nos lembra que, acima de tudo, Paul é um homem, e canta no chuveiro.

NOTA: 8,1

Track List:

01. I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter (Ahlert/Young) [02:36]

02. Home (When Shadows Fall) (Van Steeden/J. Clarkson/H. Clarkson) [04:04]

03. It’s Only a Paper Moon (Arlen/Harburg/Rose) [02:35]

04. More I Cannot Wish You (Loesser) [03:03]

05. The Glory of Love (B. Hill) [03:45]

06. We Three (My Echo, My Shadow and Me) (Mysels/Robertson/Cogane) [03:22]

07. Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive (Arlen/Mercer) [02:31]

08. My Valentine (McCartney) [03:14]

09. Always (Irving Berlin) [03:49]

10. My Very Good Friend the Milkman (Spina/Burke) [03:04]

11. Bye Bye Blackbird (Henderson/Dixon) [04:26]

12. Get Yourself Another Fool (Haywood Henry/Tucker) [04:42]

13. The Inch Worm (Loesser) [03:42]

14. Only Our Hearts (McCartney) [04:21]

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