1971: Tago Mago – Can

“Tago Mago” é um daqueles álbuns cultuados, mas na verdade mais falado do que ouvido. Grande influência para Radiohead, David Bowie, The Flaming Lips, e mais um zilhão de artistas, o álbum tornou-se, ao longo de quarenta anos, um lugar-comum para quem se diz culto musicalmente. Na realidade, “Tago Mago” não é daqueles álbuns de audição obrigatória, até porque é experimental, sofrido, e muito impactante, e há gente que prefira algo de mais fácil audição – não significando falta de cultura ou pior gosto musical. Este é um dos álbuns que fundaram o rock alternativo, divorciando o rock do blues, mostrando como a música pode alcançar certas dimensões que antes eram descartadas. Há quem conserva gostos apenas pelo rock com influências clássicas, e a estas pessoas o “Tago Mago” soaria irritante.

O álbum é proveniente de um movimento musical nascido na Alemanha, chamado krautrock, cuja intenção era fugir do óbvio, substituindo no rock as influências blues pelo flerte com música eletrônica, ambient e experimental, tendo nas improvisações um alicerce importante.

Dentro desse movimento, a banda Can é um caso especial, pois atinge nosso cérebro de forma única. Antes de tudo, se tratava de uma banda camaleônica, que em sua vasta e desconexa discografia acha-se realmente de tudo – tanto que “Tago Mago”, como é, nunca mais soou em outro trabalho. Um japonês cantando em uma banda alemã também não é algo lá muito comum, e até nisso o Can fugiu do óbvio; após a saída do antigo vocalista, um bate-papo em um café bastou para Damo Suzuki, um oriental que perambulava pela Europa, se juntar à banda. Somam-se a Suzuki músicos competentes, destacando o incrível baterista Jaki Liebezeit, que, como é dito, “foi um dos poucos bateristas que, de forma convincente, fundiu o funky ao cerebral”.

Antes de dar o play, porém, o ouvinte deve estar ciente de que não há nada como o “Tago Mago”; o álbum é realmente único. Flutua por experimentos, psicoses, inconsciências e megalomanias, sendo um trabalho extremamente corajoso e à frente de seu tempo. O tempo, aliás, é tratado de forma incrível, onde as longas jams às vezes parecem curtas demais, e curtos riffs parecem durar uma eternidade. Em suma, o álbum é um grande ataque às nossas percepções.

“Paperhouse” é forte, mostrando que às vezes o incerto e o flutuante pode ser o melhor abrigo; com muita competência, esta dinâmica e mística canção viaja por sentimentos, deixando o inconsciente levar o instrumental para onde deseja. Esta ideia de jams longas, onde o cérebro faz o seu caminho, sem se preocupar com estruturas ou ideias prontas, é uma constante no álbum, e talvez o seu maior destaque, tornando-o hipnotizante como poucos. Depois de uma primeira faixa tão incrível, tão complexa, “Mushroom” chega com o intuito de hipnotizar, com o vocal servindo como um açoite para as fórmulas prontas, e a bateria de Liebezeit trabalhando de forma incrível, tornando a canção quase unicamente sua.

“Oh Yeah” começa explodindo tudo o que havia antes, e se mostra totalmente psicodélica, alucinógena, tratando nossos ouvidos como instrumentos de uma viagem, e fazendo com que o nosso cérebro chegue a dimensões longínquas, modificando radicalmente nossas percepções de tempo e espaço; sim, é uma loucura, mas uma loucura lúcida, onde a banda mostra muito bem sua intenção de fazer algo realmente grande. “Halleluhwah” tem mais de dezoito minutos, e é um rolo-compressor, uma jam muito forte, que continua a ter um dinamismo alucinógeno como um grande ponto forte.

“Aumgn” é quase tão longa quanto a faixa anterior, pegajosa, deliberadamente incoerente, e quase sem ritmo, com seu som centrando no teclado, e contendo variações mutiladas – é uma canção tensa e densa. “Peking O” também passa dos dez minutos de duração, e com seus ritmos e vozes aceleradas, transborda de experimentalismo; para muitos pode ser até inaudível, mas deve ser considerada sua grande inovação, perfazendo, com suas inconsciências e loucuras, uma grande evolução ao tratamento com os sintetizadores.

“Bring Me Coffee or Tea” dá números finais ao “Tago Mago” com instantes de calmaria, um momento de retorno à razão após uma viagem tão maluca; é mais uma música interessante, mais melódica, e que arrebata o ouvinte com um incrível e apoteótico número instrumental.

Não é muito fácil ouvir “Tago Mago”, e à primeira audição tudo soa muito estranho. Se hoje em dia ainda é um álbum impactante, cabe a nós imaginarmos o auê que causou quando foi lançado, quarenta anos atrás. O álbum significou um rompimento às antigas ideias, uma nova e complexa abordagem ao rock, e não surpreende ser influência de tanta gente.

Se as décadas que se seguiram continuaram a renovar o rock, com novos pensamentos, tentando sempre fugir de um “mais do mesmo”, muito deve-se ao Can. Esta banda alemã foi fundamental para o rock alternativo, trazendo novas e, como pensadas antigamente, improváveis ideias. Pois “Tago Mago” é realmente improvável, inimaginável, com seus sentimentos únicos e que, mesmo tanto tempo depois, chocam até mesmo o ouvinte com a mente mais aberta. Enfim, um álbum fundamental e inovador, que influenciou uma geração inteira de músicos.

NOTA: 9,6

Track List:

01. Paperhouse [07:28]

02. Mushroom [04:03]

03. Oh Yeah [07:23]

04. Halleluhwah [18:32]

05. Aumgn [17:37]

06. Peking O [11:37]

07. Bring Me Coffee or Tea [06:47]

Download

Anúncios

2 opiniões sobre “1971: Tago Mago – Can”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s