1963: Surfin’ USA – The Beach Boys

Sol, calor e férias… Nada melhor que curtir esta época de verão em alguma praia do nosso extenso litoral. É dado um tempo no trabalho, nas preocupações cotidianas, e se entrega à curtição: mar, água de coco, mulheres de biquíni, festa, e… Beach Boys?

Talvez o grupo californiano tenha perdido a preferência do público pelo som a se ouvir na praia. Principalmente no Brasil, axé, pagode e sertanejo universitário são os sons que mais tem combinado com nossas areias litorâneas; se alguém colocar em um som de carro alguma música do “Surfin’ USA”, o povo vai pensar que o tal é um velhinho de setenta anos, só um pouquinho mais descolado que os demais (trio elétrico então, é inimaginável). Os anos passam, e é normal que isso aconteça. Mas houve uma época em que o som dos Beach Boys era o que havia de mais descolado se tratando de música litorânea.

“Surfin’ USA” não é o primeiro, e passa longe de ser o melhor trabalho da banda californiana, que nos anos que se seguiriam flertaria com psicodelismo e pop barroco, se tornando a banda americana de maior êxito na época em que as bandas da chamada invasão britânica ditavam os rumos. Não espere o ouvinte algo próximo ao “Pet Sounds”, ou uma música tão complexa quanto “Good Vibrations”; o “Surfin’ USA” mostra uma banda que estava ainda em seu começo, mas que já começava a chamar a atenção.

Se jogando em influências como Chuck Berry e Dick Dale, os Beach Boys surgiram como uma legítima banda de surf rock. Nesta época, porém, eram os trabalhos apenas instrumentais que mais chamavam a atenção neste gênero. Tratando de obter um surf rock em que o vocal também fosse destaque, os garotos da Califórnia buscaram no doo-wop as características que marcariam para sempre os arranjos vocais da banda. Já que se falou em Chuck Berry, é com uma “Sweet Little Sixteen” modificada que o álbum se inicia; Brian Wilson “emprestou” as notas da música de Chuck, alocou sua letra surf, e assim foi lançado o single homônimo ao álbum, tendo como resultado obtido simplesmente um grande sucesso (vale lembrar que os créditos a Chuck Berry estão aí).

Brian Wilson sempre foi o melhor vocalista dos Beach Boys, mas na faixa-título foi Mike Love o vocal principal. Brian assume na segunda faixa, “Farmer’s Daughter”, uma canção cujos instrumental e vocal dão um upgrade qualitativo à banda, principalmente quando se compara ao álbum de estreia, “Surfin’ Safari”, de 1962. “Misirlou” é um clássico instrumental, adaptado da cultura mediterrânea para virar sinônimo de surf; apesar de os Beach Boys apostarem em vocais elaborados, números instrumentais eram bem vistos pelos amantes do gênero.

“Stoked” é mais uma faixa instrumental, mas dessa vez composta por Brian Wilson; apesar de a banda ser praticamente uma estreante, e sua habilidade em estúdio estivesse apenas começando a ter algum destaque, os arranjos de “Surfin’ USA” já mostram que a banda poderia ser capaz, em um futuro próximo, a fazer verdadeiras obras de arte da música – o que realmente aconteceu. O supra-sumo vocal do álbum encontra-se na quinta faixa, “Lonely Sea”, uma canção calma, artisticamente muito competente, em que Brian Wilson demonstra todas suas habilidades de forma tocante; apesar de se encontrar no ainda “imaturo” segundo álbum da banda, a música está entre as melhores demonstrações vocais dos Beach Boys em toda sua carreira. “Shut Down” é animada e curta, uma canção dançante, bastante influenciada pelo som dos dinossauros do rock, e trazendo os vocais característicos da banda.

“Noble Surfer” tem várias semelhanças com a faixa anterior, e novamente o grande destaque fica para os elaborados arranjos vocais, dinâmicos e encaixados perfeitamente à melodia da canção. Em “Honky Tonk”, temos mais um número instrumental clássico, uma versão cover de um single poderoso do ano de 1956. Se em muitas vezes o álbum se mostra simples, com poucos momentos de um real brilhantismo, deve-se notar a competência da banda, que em seu segundo álbum já se mostra bem à vontade no estúdio, perfazendo músicas consistentes e com bons arranjos. “Lana” continua com essa ideia, e se apresenta como mais uma boa música, apesar dos vocais de Brian não se mostrarem tão competentes quanto na maioria das vezes.

O caçula dos Wilson, o saudoso Carl, é o compositor de “Surf Jam”, mais um instrumental bastante característico do gênero, como seu título transparece; o destaque fica para a grande performance de Carl na guitarra, ao melhor estilo Chuck Berry. Naquele tempo, não mencionar Dick Dale em um álbum de surf rock era praticamente uma afronta ao gênero; é por isso que “Let’s Go Trippin'” lá se encontra, um pouquinho escondida, sem destaque, na penúltima faixa, parecendo ter sido alocada no álbum por mera “obrigação”. “Finders Keepers” fecha o álbum, trazendo pouca novidade, mas mantendo o alto nível de qualidade; instrumental simples, mas competente, e vocais elaborados que se destacam.

Assim como nas férias as preocupações devem ser deixadas de lado, “Surfin’ USA” também é um álbum despreocupado, leve e alegre; em suma, é uma gravação perfeita para se ouvir no momento em que se deseja se libertar dos deveres cotidianos. Mas, por mais que não seja uma grande obra fundamental, mostra uma banda competente e bastante ciente do que fazer. Ainda bastante jovens, os “garotos da praia” já começavam a caminhar na estrada do sucesso, com trabalhos sempre muito consistentes; dali pra frente, e principalmente a partir do álbum “Today!”, de 1965, a banda prestaria grandiosos serviços à música, ajudando a moldar as características da música pop.

“Surfin’ USA” é um álbum com alguns momentos brilhantes, e poucas escorregadas; na grande parte do tempo, o que se ouve são boas canções, feitas sob medida para a época e o gênero, e por isso não foi uma grande surpresa o seu sucesso. Não está entre os melhores álbuns dos Beach Boys, mas é um consistente e divertido registro dos primeiros anos de uma das mais importantes bandas da história.

NOTA: 8,2 

Track List:

01. Surfin’ USA (Brian Wilson/Chuck Berry) [02:27]

02. Farmer’s Daughter (Brian Wilson/Mike Love) [01:49]

03. Misirlou (Roubanis/Wise/Leeds/Russell) [02:03]

04. Stoked (Brian Wilson) [01:59]

05. Lonely Sea (Brian Wilson/Gary Usher) [02:21]

06. Shut Down (Brian Wilson/Roger Christian) [01:49]

07. Noble Surfer (Brian Wilson/Mike Love) [01:51]

08. Honky Tonk (Doggett/Scott/Butler/Sheperd/Glover) [02:01]

09. Lana (Brian Wilson) [01:39]

10. Surf Jam (Carl Wilson) [02:10]

11. Let’s Go Trippin’ (Dick Dale) [01:57]

12. Finders Keepers (Brian Wilson/Mike Love) [01:38]

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