1973: Krig-ha, Bandolo! – Raul Seixas

Um dos grandes álbuns do mito Raul Seixas. “Krig-ha, Bandolo!” foi o primeiro trabalho de Raul a alcançar repercussão nacional, lançando ao mercado grandes sucessos, como “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “Al Capone” e “Ouro de Tolo”. Letrista impecável, bem humorado e inteligente, e dono de um vasto conhecimento musical (de rock n’ roll, principalmente), Raul chegou, em “Krig-ha, Bandolo!”, para tratar com muita sutileza dos problema que o Brasil enfrentava na época, utilizando-se de uma crítica afiada contra a ditadura militar. Mas Raul, inteligente como ele só, soube muito bem medir as palavras, fazendo  com que suas duras críticas se mesclassem com um lado mais enigmático, dando ao álbum um ar profético.

O título do álbum é um grito de guerra do personagem Tarzan, significando algo como “cuidado, o inimigo vem aí”. E é como um inimigo do governo daquela época que Raul se apresenta, tentando abrir os olhos do povo, com sua música chamativa e de muita qualidade criativa. Para iniciar, uma breve ode ao rock n’ roll, com “Good Rockin’ Tonight”; esta é uma gravação caseira, onde Raul aparece cantando a música quando tinha apenas nove anos, servindo apenas como uma introdução curiosa. O álbum começa pra valer mesmo em “Mosca na Sopa”, clássica canção anti-regime, onde Raul se apresenta como uma mosca pintando para abusar os militares, pousando na sopa (que na letra, seria a representação da sociedade), e deixando claro que, caso uma mosca seja morta, outra aparece em seu lugar; a interação entre ritmos nordestinos e o rock, presente na canção, seria uma constante em toda a carreira de Raul, que nunca fugiu de suas origens e nunca escondeu sua admiração pelos grandes dinossauros do rock (em destaque, Elvis Presley). Logo depois vem simplesmente “Metamorfose Ambulante”, mais uma das clássicas da carreira de Raul, onde ele mostra, com uma letra inteligente e alocada em belos arranjos, seu lado transgressor, afirmando que as mudanças contínuas são algo positivo.

Em “Dentadura Postiça”, há uma “não tão clara assim” tentativa de mostrar a bagunça (no lado positivo da palavra) que Raul queria causar; fatos extraordinários para uma sociedade preguiçosa, onde um certo caos seria bem-vindo, e conseguiria conviver perfeitamente com os fatos normais do dia-a-dia – se o homem é capaz de fazer subir um elevador, por que não seria capaz de tudo? “As Minas do Rei Salomão”, a quinta faixa, cujo título é inspirado no livro homônimo, de 1885, traz uma letra bastante enigmática, com a canção se desenrolando em um instrumental simples, tendo como grandes destaques as boas tiradas e citações: se fala, é claro, do romance homônimo, contrapondo a teoria e a prática, e questiona-se tanto a importância do bens materiais bem como a própria vida, dando a morte como uma alternativa.

Raul utiliza luxuosos sintetizadores (para a época), dando ao instrumental um significado futurístico em “A Hora do Trem Passar”, uma belíssima canção, com arranjos bem muito elaborados, apresentando, aos que desconhecem esta característica da música de Raul, seu lirismo romântico. Se o álbum é feito de grandes canções do rock nacional, verdadeiras obras-primas, não poderia faltar “Al Capone”, uma das mais conhecidas da parceria Seixas/Coelho, com guitarras mais encorpadas e uma letra divertida, mas cuja intenção não é muito conhecida; através de personagens da história, como Julio César, Jesus Cristo, Jimi Hendrix, e o próprio Al Capone, parecem ser questionadas as previsões de um astrólogo – que para o bem das apostilas de história, não foi ouvido. Raul também compunha muito bem em inglês, como se percebe na bela “How Could I Know”, que está, sem dúvida, no seleto grupo das melhores composições em inglês feitas por brasileiros; é linda, simples mas tocante, e se suspeita que foi feita em homenagem a Elvis.

“Rockixe”, uma música repleta de metais, apresenta-nos um instrumental mais luxuoso, mas bastante ciente, se desenrolando naturalmente; é mais uma anti-regime, com uma crítica sutil e até certo ponto discreta, podendo ser ouvida apenas como um ensaio narcisista. “Cachorro Urubu” tem uma estrutura mais folk, assemelhada ao som de Bob Dylan, e se trata de mais uma canção com cunho político, sem bem que, mais uma vez, a crítica é sutil, passando desapercebida por ouvidos mais desatentos.

O álbum não poderia se encerrar de forma diferente: eis aqui a genialidade de Raul Seixas em estado de graça. Na auto-biográfica “Ouro de Tolo”, Raul inunda nossos preguiçosos ouvidos com críticas e indagações, apresentando alguém com uma vida tranquila, financeiramente resolvida, mas que não consegue encontrar a felicidade nos bens materiais; anseia-se por algo a mais, mas ao mesmo tempo em que o lado humano o faz poderoso, seu lado primata e inconsciente lhe alerta sobre a fraqueza dos homens… Pode ser considerada como um tapa na cara do sistema, uma crítica dura à sociedade, mas o certo é que está entre as mais inteligentes composições da história da música brasileira.

Um registro histórico, construído com canções fantásticas, de absurda qualidade e inteligência. “Krig-ha, Bandolo!” não está apenas entre os melhores álbuns já feitos no Brasil, mas como sua audição é obrigatória para se entender o rock setentista em terras tupiniquins. Este primeiro álbum da carreira solo de Raul é uma busca concreta pela união da arte com a política, se tratando de um entretenimento politizado que agradou à maioria, menos aos conservadores.

Com muita sensibilidade, e um bom toque de uma lúcida maluquês, Raul Seixas se tornou um ícone nacional, sinônimo de rock e de criatividade. Quando estiver em dúvida do que ouvir, em uma hora qualquer deste nosso cotidiano mecânico, dê uma atenção especial ao “Krig-ha, Bandolo!”, e não tenha dúvidas… Toca Raul!

NOTA: 9,6

Track List:

01. Introdução: Good Rockin’ Tonight (Roy Brown) [00:50]

02. Mosca na Sopa (Raul Seixas) [03:58]

03. Metamorfose Ambulante (Raul Seixas) [03:50]

04. Dentadura Postiça (Raul Seixas) [01:30]

05. As Minas do Rei Salomão (Raul Seixas/Paulo Coelho) [02:22]

06. A Hora do Trem Passar (Raul Seixas/Paulo Coelho) [01:50]

07. Al Capone (Raul Seixas/Paulo Coelho) [02:38]

08. How Could I Know (Raul Seixas) [02:36]

09. Rockixe (Raul Seixas/Paulo Coelho) [03:44]

10. Cachorro Urubu (Raul Seixas/Paulo Coelho) [02:08]

11. Ouro de Tolo (Raul Seixas) [02:51]

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