2011: 4 – Beyoncé

Beyoncé Knowles é, sem dúvida, uma das divas da música pop atual. Dona de uma musicalidade extremamente radiofônica, que agrada a muitos, acabou experimentando em seu novo álbum, porém, uma releitura de suas principais influências, se estendendo dos anos sessenta até alguns elementos do indie pop atual. Segundo a própria, estando com vontade de dar um tempo quanto a trabalhos radiofônicos, e sentindo uma imensa vontade de fazer algo mais introspectivo, acabou partindo para algo bastante diferente a seus álbuns anteriores. “4” é mais maduro, mais completo e com mais influências clássicas, oriundas da música africana tradicional, da soul music, do funk e do rock.

Em “4” é de muito fácil observação a intenção de Beyoncé em se afastar da cena pop atual dos Estados Unidos, de Rihanna, Gaga e Perry, onde as canções e os álbuns se mantem presos ao conceito eletrônico, em que a base para a música pop são as batidas enlouquecedoras e o ritmo dançante, porém de fraco peso melódico. Crescendo tanto pessoalmente quanto musicalmente, Beyoncé vive um novo momento em sua carreira, onde, mesmo sem deixar os singles pegajosos de lado, há um maior espaço para uma sonoridade mais trabalhada, mais artística. Porém, o álbum não se arrisca muito, com Beyoncé optando pelo seguro ao tratar de influências antigas – e já prontas – em baladas tranquilas.

A primeira faixa do álbum, “1+1”, nos traz um resultado conhecido, mas que para Beyoncé não parece tão óbvio assim; com belos riffs de guitarra e fortes influências de soul music, nesta balada a cantora se sente segura para lidar de forma certeira com as nuances de sua atuação vocal, sabendo medir de forma competente os alcances, com uma voz que às vezes pode parecer trêmula, mas que assim propositalmente é feita para adquirir um tom mais sentimental. Em “I Care” é possível se destacar mais a caprichosa produção do álbum, digna para uma das cantoras mais famosas da atualidade; a canção é uma power-ballad, bastante competente, onde, assim como na faixa anterior (e em praticamente todo o álbum) há a exploração de sentimentos introspectivos, que são apoiados novamente por um belo vocal e uma guitarra melódica.

“I Miss You” é uma balada calma e surpreendentemente bela, com fortes inspirações no pop-soul do final da década de setenta e do início da de oitenta; com esta faixa, fica claro que a Beyoncé não se preocupa com modismos, fazendo com que, numa época em que as batidas pesadas e a inundação de sintetizadores são vistos como elementos cool, a calmaria e o silêncio sejam seus principais aliados para construir belas canções. A voz da cantora se mostra especialmente forte em “Best Thing I Never Had”, uma música construída em base de piano que pode lembrar o que Adele tem feito; a produção se mostra competente, sabendo medir os elementos de forma certeira, dando para o poderoso refrão o destaque necessário. “Party” parece ser um alento para quem sempre se acostumou com uma Beyoncé bastante ligada ao hip-hop – mas, apesar do rapping de André 3000 e da produção de Kanye West, não espere o ouvinte uma canção agitada; a música é mais uma balada, consciente, competente apesar de exigir menos da voz da cantora, em que os elementos de hip-hop até chegam a acrescentar.

“Rather Die Young” é outra canção bem produzida e com influências antigas, e essa releitura eleva Beyoncé a um outro nível; apesar de investir em fórmulas prontas, estas se mostram de muito melhor gosto e bem menos óbvias que as utilizadas pela grande maioria das pop stars atuais – em “4” há uma busca por um som mais básico, mais adulto, mas nem por isso mais insosso. O apelo comercial ainda está presente, mas de forma menos gritante e não exagerada, se contrapondo ao irregular (mas comercialmente vencedor) “I Am… Sasha Fierce”. “Start Over”, porém, apresenta uma estrutura sonora um pouco estranha, apesar da letra investir na mesma fórmula das demais músicas do álbum; mas o destaque é a voz de Beyoncé, e sua performance continua soando bastante competente. Se ela ainda tem inseguranças, soube esconder muito bem.

“Love On Top” diz tudo o que o “4” queria pronunciar desde o seu início; é sentimental, íntimo, de uma sensualidade não vulgar, onde Beyoncé se mostra madura, uma mulher feita, onde a chagada da idade dos 30 anos é capaz de interferir diretamente nos rumos de seu trabalho. Na sequência, ironicamente, vem “Countdown” e depois “End of Time”; a primeira é um dos poucos momentos em que a Beyoncé dos álbuns anteriores dá as caras, e a segunda, com seu ritmo quente, africano, parece querer dizer que aquele mundo musical em que Beyoncé vivia acabou. “I Was Here” emociona, com uma performance perfeita de Beyoncé, em que o acompanhamento do piano, dos violinos e da entorpecente guitarra cria o clima perfeito para a cantora brilhar.

O álbum não acabou ainda, mas poderia muito bem ter se findado na faixa 11; a décima-segunda, “Run the World (Girls)”, é provavelmente uma das piores músicas já feitas por Beyoncé, uma vinheta sem-graça que encerra o “4” negativamente; ela lembra até a famigerada “Singles Ladies (Put a Ring on It)”, ou seja, uma música para clip, feita para Beyoncé dançar e mostrar suas curvas – nada contra, muito pelo contrário, mas poderia ter sido lançada apenas como single, pois ficou muito mal alocada no álbum “4”.

A ideia que se tem após se ouvir o “4” é que Beyoncé está segura como nunca, totalmente ciente do que fazer e com o controle total de sua carreira. Ela cresceu bastante, e hoje é a “Sra. Jay-Z” com 30 anos e com uma filha pra criar – e seu último álbum está bem a par do que ela é hoje. Isto é, um trabalho introspectivo, buscando fortalecer as ideias da cantora.

Com músicas pouco arriscadas, alocadas em fórmulas prontas, mas que dão um belo upgrade na cena pop atual, Beyoncé construiu um álbum maduro e competente, se consolidando como uma das principais artistas da música pop.

NOTA: 7,1

Track List:

01. 1+1 (Nash/Stewart/Knowles) [04:33]

02. I Care (Bhasker/Hugo/Knowles) [03:59]

03. I Miss You (Ocean/Taylor/Knowles) [02:59]

04. Best Thing I Never Had (Edmonds/Dixon/Knowles/Smith/Taylor/Griffin/…) [04:13]

05. Party (West/Bhasker/Knowles/André 3000/Mills/Davis/Walters) [04:05]

06. Rather Die Young (Bhasker/Steele/Knowles) [03:42]

07. Start Over (Taylor/Knowles/Dean) [03:19]

08. Love on Top (Knowles/Nash/Taylor) [04:27]

09. Countdown (Nash/Taylor/Knowles/Dean/Lamb/Frost/Bivins/Morris/Morris) [03:32]

10. End of Time (Knowles/Nash/S. Taylor/D. Tayor) [03:43]

11. I Was Here (Warren) [03:59]

12. Run the World (Girls) (Nash/Knowles/Pentz/Taylor/Palmer/van de Wall) [03:56]

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