1967: Domingo – Caetano Veloso e Gal Costa

Como o leitor sente o domingo? O ápice do fim de semana, prolongando do sábado aqueles sentimentos de alegria, preguiça, descomprometimento e descanso? Ou como o dia anterior à segunda-feira, já te lembrando dos compromissos e da realidade dura do dia seguinte? Os baianos Caetano Veloso e Gal Costa o pensam como um dia destinado ao lirismo e à boa música, criando em cima do “dia em que não se trabalha”, o dia santo, um abençoado trabalho da MPB.

“Domingo” é o álbum de estreia tanto de Caetano quanto de Gal, lançado em 1967, produzido por Dori Caymmi (filho de Dorival) e apadrinhado por Maria Bethânia (irmã de Caetano), que na época já era bastante conhecida pelo público devido ao espetáculo “Opinião”. O álbum traz uma sonoridade totalmente inserida na bossa-nova, tanto em letras e arranjos como no jeito de cantar.

Apesar de apresentar pouca inovação e de ainda não estar inserido completamente no movimento tropicalista, o primeiro álbum de Caetano e Gal é um registro histórico da música popular brasileira, se destacando por ser um trabalho elegante e especialmente sensível – musicalmente e no próprio sentido do verbo. As letras de Caetano já se apresentam incríveis, de um espantoso talento, com um inteligente lirismo que já tinha sido experimentado quando da gravação, por Maria Bethânia, em 1965, de “Sol Negro” (composição de Caetano e primeira aparição em estúdio de Gal, em dueto com Bethânia, presente no álbum de estreia da irmã de Caetano). A produção de “Domingo” também deve ser elogiada, cabendo a Dori Caymmi a competência pelos belos arranjos do disco.

A amizade de Caetano e Gal é coisa de longa data, e mesmo em 1967 ela já era sólida e relativamente antiga. Ambos contracenaram (juntos com Gilberto Gil, Tom Zé, entre outros), na juventude, espetáculos semi-amadores como “Nós, por exemplo” e “Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova”, no teatro Vila Velha, em 1964. Pode estar aí, inclusive, a grande base para a criação do movimento musical tropicalista.

O álbum abre com “Coração Vagabundo”, primeira composição de Caetano Veloso a ter êxito comercial; assim como em todo o álbum, há a utilização total dos elementos da bossa-nova, mas já trazendo algo a mais – mesmo bem discretas, características conhecidas da obra de Caetano, como a releitura e a reinvenção, já estavam presentes. “Onde eu Nasci Passa um Rio” é belíssima, assim como a faixa anterior; liricamente rica, trazendo uma certeira sensibilidade tanto na letra quanto na melodia, já é mostra de que Caetano seria capaz de fazer muito pela música brasileira. Com arranjos extravagantes e luxuosos, “Avarandado” deixa Gal Costa brilhar, com sua bela voz e sua bela interpretação, apoiada por mais uma bem-vinda composição de Caetano.

Em “Um Dia”, podem se dar provas que, além de um fantástico compositor, Caetano também é um ótimo cantor; na canção, sua voz é de um doce lirismo, acompanhando perfeitamente os sentimentos da letra. A quinta é a faixa-título, trazendo o misto de sentimentos quanto à tarde de domingo.

“Nenhuma Dor”, composta por Caetano e Gilberto Gil, é outra ótima canção, que na belíssima interpretação de Gal se mostra extremamente sensível e aconchegante. Deve ser dito que, se Caetano foi o guru deste álbum, onde a maioria das faixas são de sua autoria, Gal é a flor desabrochada, interpretando belamente, dando cores vivas ao chão criado por Caetano. “Candeias” é mais uma prova disso, onde Gal é o destaque total desta faixa composta por Edu Lobo.

A oitava canção do álbum é “Remelexo”, cantada por Caetano, e é uma ótima representação de uma pura paixão para a encantadora menina da roda de samba, contendo mais uma letra inteligente e afetuosa. “Minha Senhora”, cantada por Gal, é mais uma faixa fascinante, com outra interpretação linda e aconchegante para os ouvidos. A consistência de “Domingo” chega a ser gritante; o álbum é inteiramente feito por grandes canções, donde se pode ouvir toda a beleza que a música brasileira é capaz de oferecer. São músicas agradáveis, acolhedoras e aconchegantes, donde nenhum defeito pode ser arrancado, e alguma crítica negativa poderia ser considerada sandice.

“Quem Me Dera” é fruto de uma das cooperações de Gilberto Gil com o poeta Torquato Neto, e se mostra como uma ode à Bahia, alternando-se entre momentos tranquilos, como se Caetano estivesse sozinho com seu violão no pôr-do-sol de uma praia, com momentos mais agitados, onde há o acompanhamento de um grupo de samba. “Maria Joana” é a incrível união da bela voz de Gal com uma rica melodia, perfazendo mais uma canção inteligente e agradável.

Os acordes finais deste clássico álbum ficam por conta de “Zabelê”, outra canção liricamente rica e interpretada com maestria por Caetano e Gal. Tal maestria poderia assustar, pois construir um trabalho tão impecável, logo na estreia em estúdio, é coisa para poucos, muito poucos…

Há os que crescem, e estes devem ser elogiados, pois vão se destacando à medida que aprendem a brincar com o jogo. Há os que amadurecem, e a estes também cabem elogios, pois aprendem com o tempo. Então, o que deve ser dito a quem já nasce grande? Elogios para quem encanta desde sempre? Não, isso é muito pouco… Caetano e Gal já nasceram grandes, e desde o começo destacaram-se como alicerces da música brasileira. Mais do que se elogiar, deve-se glorificar, pois são dois nomes fundamentais da música do nosso país.

NOTA: 9,0

Track List: 

01. Coração Vagabundo (Caetano Veloso) [02:25]

02. Onde eu Nasci Passa um Rio (Caetano Veloso) [01:59]

03. Avarandado (Caetano Veloso) [02:45]

04. Um Dia (Caetano Veloso) [03:31]

05. Domingo (Caetano Veloso) [01:25]

06. Nenhuma Dor (Caetano Veloso/Gilberto Gil) [01:33]

07. Candeias (Edu Lobo) [03:11]

08. Remelexo (Caetano Veloso) [01:54]

09. Minha Senhora (Gilberto Gil/Torquato Neto) [04:14]

10. Quem Me Dera (Caetano Veloso) [03:24]

11. Maria Joana (Sidney Miller) [01:42]

12. Zabelê (Gilberto Gil/Torquato Neto) [02:49]

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