1970: Black Sabbath – Black Sabbath

Não somente um clássico do heavy metal; o primeiro álbum verdadeiramente do gênero. Isto já faz do álbum de estreia da banda Black Sabbath um registro incrível, pois foi fundamental para construir as bases de uma das vertentes mais seguidas do rock. Mas não é só isso: o álbum também é chocante, impregnante, com suas guitarras marcantes e seus temas obscuros.

Além disso, o cenário é feito de surpresas. A primeira delas pode ser experimentada quando se fala das intenções da banda. Engana-se profundamente quem acha que o Black Sabbath já nasceu com o intuito de ser uma banda “assustadora”; seu primeiro nome era Earth, mas, por haver outra banda com o mesmo título, tiveram de alterá-lo. Foi somente a partir daí que surgiram as influências de filmes de terror, inclusive ao nome da banda, título de um clássico filme do gênero, de 1963.

O heavy metal também não era uma intenção inicial da banda, que se propunha em seus primeiros anos a fazer um blues-rock, que na época tinha o Cream como o principal modelo. Tendo que mudar o nome da banda, e optando por um título terrorístico, o Black Sabbath também viu mudar o seu som, a começar pelas letras assustadoras, em situações obscuras, passando por um peso maior dado ao instrumental, e assim chegando finalmente ao tão falado “blues pesado e distorcido”.

Pode-se dizer que o acaso foi construindo o Black Sabbath, com algumas alterações forçadas. Mas nada forçado é o seu primeiro trabalho. Apesar de ser o primeiro álbum de heavy metal, “Black Sabbath” não surgiu com o intuito de revolucionar, de criar um novo gênero de música. Era apenas o som que uma nova banda fazia, procurando a sua identidade, que felizmente chegou pronta na gravação de seu primeiro álbum. Apesar de estreante em estúdio, a banda já tinha segurança, estando muito ciente do que deveria fazer. Tal afiação pode ser comprovada quanto ao processo de gravação do disco: no primeiro dia, a banda tocou seu repertório, ao-vivo e em um só take, enquanto o segundo dia ficou somente para a mixagem.

O espetáculo inicia-se com os mistérios de um tempo chuvoso e de um sino de igreja, que perfazem o início da faixa-título; esta é construída sob uma inundação de riffs fortes, assustadores, amparados pela bateria “climatizada” de Bill Ward e pelo vocal inconfundível de Ozzy Osbourne. Apesar dos maiores méritos deste primeiro trabalhos serem do guitarrista Tony Iommi, toda a banda trabalha fortemente unida, com um entrosamento invejável. A gaita em “The Wizard” é um elemento importante, ajudando a criar o ambiente desejado, e até reforçando as vertentes blues da banda; a canção continua com a ideia de colocar peso aos riffs utilizando um tempo lento.

O vocal de Ozzy pode até ser irritante para alguns, mas ser bonito nunca foi o intuito do modo dele cantar; o vocal dele é ambientador, colocando as músicas no nível de obscuridade desejada, e isso ele sempre fez com competência. É verdade que no álbum “Black Sabbath” ele se encontra ainda um pouco cru, utilizando uma voz demasiadamente nasal em alguns momentos, e que seu crescimento como vocalista só se daria no álbum seguinte, “Paranoid”. Mas, para cantar o que o Sabbath se propunha em seu primeiro trabalho, foi dada conta do recado, mesmo com um vocal tecnicamente medíocre.

O destaque fica realmente para o conjunto, para a interação entre todos os integrantes da banda. “Behind the Wall of Sleep” só vem a condensar esta ideia, com um trabalho entrosado e competente, onde é dada toda a base necessária para Iommi brilhar com seus riffs arrebatadores. Geezer Bluter também merece aplausos, com suas excelentes linhas de baixo, que sempre dão algo a mais para as músicas – às vezes, seu instrumento parece trabalhar como uma segunda guitarra, percorrendo caminhos mais complexos e interessantes do que simplesmente seguir timidamente Tony Iommi. “N.I.B.”, um rock pesado e muito bem construído (talvez o mais fino do álbum, dinâmico e melodicamente muito rico), é prova das qualidades de Bluter, se bem que é Iommi que novamente dá o espetáculo, com riffs que vão do pesado para o melódico com uma sensacional consciência.

“Evil Woman” dá um descanso para as composições do Sabbath, sendo uma versão cover da banda de blues-rock Crow. Deve-se deixar bem claro que é a versão européia que está sendo levada em consideração, pois antigamente costumava-se cometer atrocidades nos Estados Unidos quanto aos álbuns de bandas inglesas – a discografia norte-americana dos Beatles é um bom exemplo disso.

A sexta é a misteriosa “Sleeping Village”, com seu clima noturno, donde se pode imaginar árvores de galhos secos, morcegos, uma assustadora lua cheia e uma banda tocando em um porão escuro; a canção apresenta um número instrumental impecável, repleto de blues, com uma boa dinâmica. É mais um cover, “Warning” (de Aynskey Dunbar Retaliation), que dá notas finais ao álbum, mais uma vez apresentando uma estrutura bastante consistente, repleta de blues-rock, e com uma parte final apoteótica – com mais uma grande atuação da banda, digna para encerrar um álbum de tanta qualidade. “Wicked World” é uma faixa bônus, música presente, na época, na versão americana do álbum, mas não na inglesa; é uma faixa interessante, trazendo um estilo de riffs que marcaria o próximo trabalho da banda, “Paranoid”.

“Black Sabbath” é um álbum excelente, mostrando o ótimo trabalho realizado por uma banda que acertou em suas escolhas. Com atuações instrumentais impecáveis, brilhantes (e vocais nem tanto, mas que correspondem ao que se pede), este disco se mostra de uma importância fundamental. Mesmo sem ser a sua intenção, acabou sendo revolucionário, ficando para a eternidade como o primeiro álbum inteiramente de heavy metal.

Em suma, o álbum de estreia do Sabbath é um clássico. Além de delirante, se destaca como um registro histórico imperdível.

NOTA: 8,8

Track List:

01. Black Sabbath (Iommi/Butler/Ward/Osbourne) [06:20]

02. The Wizard (Iommi/Butler/Ward/Osbourne) [04:24]

03. Behind the Wall of Sleep (Iommi/Butler/Ward/Osbourne) [03:37]

04. N.I.B. (Iommi/Butler/Ward/Osbourne) [06:08]

05. Evil Woman (Larry Weigand/Richard Weigand/Waggoner) [03:25]

06. Sleeping Village (Iommi/Butler/Ward/Osbourne) [03:46]

07. The Warning (Dunbar/Hickling/Moreshead/Dmochowski) [10:28]

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