2011: Canções de Apartamento – Cícero

Livros na prateleira, quadros na parede, instrumentos em um canto da sala… Este poderia ser mais um cenário bucólico qualquer, com a claustrofobia de um apartamento cercado por mais prédios e ruas de trânsito pesado. Das janelas, pequenas janelas, poderia ser observado o vai-e-vem, naquele cotidiano sem-graça da cidade. Pode parecer até estranho, mas desse panorama acabou saindo um dos melhores álbuns de MPB dos últimos anos; lançado de forma tímida, longe dos holofotes, “Canções de Apartamento” não demorou muito para conquistar os ouvintes, com o seu olhar artístico sobre a vida moderna. E é uma bênção que o reconhecimento tenha vindo logo.

Transformar um cenário tão cotidiano e artisticamente obsoleto em música sutil e cativante é de uma sensibilidade incrível. Os louros devem ser colocados na fronte do músico carioca Cícero Lins, ex-integrante da banda Alice (uma daquelas bandas surgidas no Brasil em meio ao fervor indie da década passada, que fez bons trabalhos mas desapareceu rapidamente). Ele focou-se em seu apartamento, compôs e gravou seu primeiro álbum solo, um trabalho bastante intimista e sem grandes pretensões (pode ser até baixado gratuitamente no site do cantor), mas que acabou conquistando muitos. Se embebedando em ótimas influências, mas olhando constantemente para o presente e o futuro, foi possível criar, mesmo com tanta simplicidade, um clássico da chamada “nova MPB”.

O álbum é liricamente impecável, e a voz sofrida de Cícero se mostra perfeita para interpretar de forma eficaz o que as letras querem passar. O instrumental é muito bonito e inteligente, ambientando ideias do passado em um meio repleto de guitarras distorcidas, querendo não ser apenas algo a mais, mas ajudando a passar os sentimentos do músico. Através de amores, saudades, abandonos e solidão é feito o disco.

“Tempo de Pipa”, com sua linda melodia, abre o álbum procurando contrastar o passado de céu livre com o presente de paredes e carpete, enquanto Cícero busca pelo que é belo e vulgar, entregando-se à preguiça, em um ambiente ao mesmo tempo calmo e denso, como em uma alternância de tempo bom e tempestade. Olha-se o presente pela janela em “Vagalumes Cegos”, retratando a estranheza do músico quanto ao cotidiano, necessitando de algo mais simples e humano; a faixa ambienta-se em um “Radiohead bossa-nova” denso e dinâmico.

Em “Cecília e os Balões” anseia-se por mais cor, alegria, ar puro, como se fosse possível ter um bando de passarinhos silvestres cantando dentro de um apartamento; após uma melodia aconchegante e riffs pensativos, a utopia se desfaz, e o cantar dos pássaros se transforma em um triste som metálico qualquer. No “Canções de Apartamento” não faltam citações (a capa mostra isso muito bem), e há Caetano em “João e o Pé de Feijão”, como se Cícero quisesse não esconder, mas sim revelar em alto e bom som as suas inspirações; a faixa é mais uma bela canção, triste e obscura, mais intimista o possível, parecendo se tratar de uma visão crítica de Cícero sobre ele mesmo. Depois de algo como um “ensaio sobre mim mesmo”, vem “Ensaio Sobre Ela”, ambientada em um clima chuvoso, ligeiramente romântico (pois nada no álbum de Cícero é tudo ou totalmente, as nuances são muitas), onde é cantada uma companhia momentânea que vai embora rápida demais; queria-se algo a mais, como a terra seca que recebe apenas algumas gotas de chuva.

“Açúcar ou Adoçante?” funciona como uma continuação da faixa anterior, onde o músico, mesmo tomando decisões, deixa margem a escolhas, com uma voz rouca que escancara sentimentos. “Eu não tenho um barco, disse a Árvore” é a sétima faixa, depressiva, lamentando as perdas, com sua parte final auxiliada pelo “The Bends”. Ouvimos marchinha de carnaval e citação de Braguinha em “Laiá Laiá”, uma música com um clima todo especial, onde é mostrada a tentativa de se ter mais alegria, mesmo ainda com alguma coisa de sentimento pessimista.

“Pelo Interfone” é uma conversa onde nem o frio das paredes é capaz de esconder os sentimentos; tanto letra, como melodia e arranjos – instrumental e vocal – se encaixam perfeitamente, em mais uma certeira canção do álbum. “Ponto Cego” é a última faixa, com seu jogo de frases que se contrasta com o refrão simples, que deixa aquela ilusão pertinente de que a chegada da sexta-feira irá melhorar tudo.

Cícero conseguiu reunir influências de MPB, tropicalismo e rock alternativo, de uma forma como se fosse possível ter Tom Jobim, Caetano Veloso, Marcelo Camelo e Thom Yorke colaborando em um mesmo álbum… Uma MPB de personalidade forte, com uma sonoridade competente e sensível, onde as belas melodias são a base, e as fortes guitarras dão um charme especial. Tudo se completa, com a parte instrumental e vocal trabalhando juntas para criar o clima desejado.

“Canções de Apartamento” é um álbum belíssimo, liricamente poderoso, com seus lamentos e sentimentos. Procura contrastes e alegorias, com muita inteligência e sensibilidade, para mostrar quão naturalmente artificial pode ser o nosso dia-a-dia.

NOTA: 8,7

Track List:

01. Tempo de Pipa [03:42]

02. Vagalumes Cegos [03:21]

03. Cecília e os Balões [02:39]

04. João e o Pé de Feijão [03:32]

05. Ensaio Sobre Ela [03:58]

06. Açúcar ou Adoçante? [04:15]

07. Eu não tenho um barco, disse a Árvore [03:26]

08. Laiá Laiá [03:19]

09. Pelo Interfone [03:57]

10. Ponto Cego [03:03]

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