1971: American Pie – Don McLean

Sem dúvida, este álbum, o magnum opus de Don McLean, é um trabalho marcante. Gravado e lançado no início dos anos setenta, é um produto de sua época, refletindo a vaga depressão do início daquela década, com suas críticas à sociedade e pensamentos negativos sobre o rumo do mundo, com suas guerras e injustiças. Mais conhecido pela sua faixa-título, uma música de uma melodia incrível, que acabou se tornando um sucesso absoluto, entrando como um patrimônio cultural norte-americano, o álbum “American Pie” ainda acabou emprestando seu título para uma série cinematográfica de humor teen, que, por obséquio, se mostra menos reflexiva do que o álbum. Para ouvir o trabalho de McLean, o ouvinte deve deixar os Stifler de lado.

Apesar de Don McLean notavelmente se apresentar mais como um artista de folk music, sua música contém toques instrumentais bem característicos de rock (ou, algumas vezes, de algo mais pop), capaz de lembrar um pouco, pela sonoridade de seus instrumentais, o folk-rock de Bob Dylan. Mas o ouvinte não deve esperar, com McLean, letras geniais e/ou grandes obras da música, exceto quanto tratamos de sua composição mais conhecida.

A cultural “American Pie” fala sobre o dia em que a música morreu; felizmente, esta expressão não deve ser levada ao pé da letra, tratando, na verdade, do dia em que três pioneiros do rock n’ roll (Buddy Holly, Ritchie Valens e o Big Bopper) acabaram falecendo em um trágico acidente de avião. Mas a letra é cheia de significados obscuros, dignos de estudos posteriores, inclusive acadêmicos. Muitas rádios americanas de rock chegaram a ter programas inteiros dedicados para a discussão e o debate da letra da música, resultando tanto em controvérsias, quanto no interesse dos ouvintes em ouvir a canção. Falando várias vezes do sentimento da perda da inocência, a letra pode abranger o sentimento coletivo após as mortes dos Kennedy (John e Robert) e de Martin Luther King Jr. Ou o tal vazio poderia se relacionar diretamente à morte de Buddy Holly – a quem, inclusive, o álbum foi dedicado. Se a letra é de um mistério inacabável, resta falar sobre a sua melodia extraordinária, alocada em uma estrutura dinâmica, em que a música ora é calma e triste, ora é alegre e dançante. Seu refrão é um dos mais cantáveis já feitos, e o incrível sucesso feito pela canção não pode ser tratado como surpresa.

Não é raro encontrar pessoas que só conhecem a música mais famosa de McLean (ou, pior ainda, que pensam que esta se trata de uma composição da Madonna), e por mais que seja um fato despercebido por muitos, o álbum não possui apenas a faixa-título. A segunda faixa é a calminha “Till Tomorrow”, orquestrada, bem produzida, e com um certo toque de melancolia que, aliás, é um ponto forte de sua letra.

“Vincent” é um outro ponto forte do álbum, sendo uma canção em que se fala do pintor Vincent Van Gogh. É mais uma letra cheia de alegorias, onde McLean mostra ter certa admiração não só pelos trabalhos, mas pela própria personalidade do pintor. Com citações de várias passagens da carreira do pintor, como de paisagens e de auto-retratos, Don McLean canta as peripécias vividas pelo artista plástico, como a loucura e o não-reconhecimento tanto em vida quanto após a morte. É mais uma música calma, bem feita, e que agrada bastante aos ouvidos.

A quarta, “Crossroads”, é uma música cheia de reflexões pessoais, se mostrando de um intencional desânimo, em que o piano melancólico e a letra de cunho pessimista são capazes de derrubar qualquer pessoa em êxtase. Já, “Winterwood”, é uma bonita canção de amor, com uma letra mais animada, mais otimista, em que McLean é um personagem totalmente apaixonado. “Empty Chairs” contém um instrumental simples e bonito, novamente trazendo uma letra bem introspectiva. A tônica do álbum é realmente essa alternância entre temas mais extrospectivos e mais pessoais.

“Everybody Loves Me, Baby” é uma música mais agitada, muito bem-vinda, em que McLean trata com muito bom humor da crítica a um tipo de ditador populista, rico e poderoso, e principalmente, amado pela população; um tema que, mesmo tantos anos depois, continua atual. A espiritual “Sister Fatima” eleva o álbum a mais mistérios, com mais uma letra que pode ser interpretada de várias formas. É incrível como McLean tratava os sentimentos da época com melancolia e enigmas; talvez houvesse o sentimento de tratar do presente e, ao mesmo tempo, olhar para um futuro incerto.

Don McLean, além de um bom letrista, ostentava uma belíssima voz, além de ser um instrumentista de destacado talento; isso é percebido perfeitamente na obscura “The Grave”, que se trata de uma canção que vai crescendo em densidade à medida em que o tempo passa. A última faixa do álbum é a tradicional “Babylon”, que enfatiza o rótulo folk do álbum, apesar dos flertes com a música pop.

É estranho ver como Don McLean não conseguiu repetir o sucesso de seu segundo álbum. Seu primeiro álbum havia sido um fracasso comercial, o terceiro também teve vendagem medíocre, e assim se seguiu. Ele é um músico de grande talento, visto suas boas composições (às vezes com toques de brilhantismo), sua muito bonita voz e seu talento ao violão. “American Pie” acabou sendo o seu único grande trabalho, mas, que a verdade seja dita, vale muito mais do que algumas extensas discografias por aí. É um álbum reflexivo, inteligente, que por mais que em alguns momentos soe triste demais, consegue uma boa crítica sobre a sua época.

Muitos não viveram o início da década de setenta, e os que viveram podem ter se esquecido. Mas, aos que lembram (ou que procuraram saber) fica claro que, se houve um álbum que retratou os sentimentos mistos daquela época, este foi o “American Pie”. E que se destaque a faixa-título, pois é o que deve ser feito.

No link de download abaixo, uma versão remasterizada de 2003, com duas faixas-bônus (e, por sinal, bem interessantes).

NOTA: 8,5

Track List: (todas as faixas compostas por Don McLean, exceto a 10)

01. American Pie [08:33]

02. Till Tomorrow [02:14]

03. Vincent [03:59]

04. Crossroads [03:38]

05. Winterwoods [03:10]

06. Empty Chairs [03:25]

07. Everybody Loves Me, Baby [03:34]

08. Sister Fatima [02:34]

09. The Grave [03:12]

10. Babylon (Tradicional) [01:42]

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