2011: Elektra – RPM

“Foi burrice nossa ter parado por tanto tempo”, são as palavras de Paulo Ricardo. Realmente, o retorno da formação original do RPM foi um processo tedioso, com uma reunião no início da década passada e um novo rompimento, sempre com muitas acusações de ambos os lados e uma boa dose de um disse-não-disse insuportável. Não há motivo para eles estarem separados, e mesmo que tenha sido tardia, a volta do RPM ao estúdio e aos shows é algo a se comemorar.

“Elektra” é o álbum que marca a volta da banda que foi fenômeno no Brasil durante a década de oitenta. Porém, esqueça-se o ouvinte daquele som do “Revoluções Por Minuto”; felizmente, a banda não apostou em fórmulas prontas, oferecendo-nos um álbum que se mostra bastante atual. Este novo trabalho faz com que a banda soe viva, sem ser uma caricatura dos longínquos anos oitenta.

A primeira faixa é a ótima “Dois Olhos Verdes”, que surpreende pela qualidade; a interação entre rock e música eletrônica soa muito bem, e Luiz Schiavon parece estar afiado, bem como Paulo Ricardo, sempre com boas letras e um vocal competente. Pra quem esperava que o desgaste causado por tantas idas e vindas fosse prejudicar a banda, tornando-a forçada, o RPM oferece músicas bem construídas, competentes e antenadas com a realidade de hoje. “Problema Seu” é um dos bons destaques do álbum, oferecendo uma letra interessante e uma produção caprichadíssima, digna de aplausos.

A explosiva “Muito Tudo” é, provavelmente, a faixa mais significativa do álbum, com seu som eletrônico e com uma letra que demonstra os sentimentos atuais da banda, soando praticamente como a última canção de cunho crítico do RPM; nada mais de críticas ao governo e à sociedade. Riffs de guitarra pesados se destacam na eletropop “Pessoa X”, mais uma ótima aposta da banda, que se mostra capaz de gravar algo como um psy-rock. “Deusa das Águas” traz novamente uma sonoridade interessante, mas é um pouco mais superficial, com uma letra romântica que pode deixar dúvidas quanto a sua qualidade; versos desnecessariamente repetitivos e algumas rimas que podem lembrar o brega de Wando ou Sidney Magal.

“Crepúsculo” retoma as agitações com um ritmo dançante e seus riffs funk-rock, onde a letra promíscua lembra-nos do lado mais sensual das canções do RPM. A sétima é a faixa-título, dançante como seu título poderia deixar transparecer; mais uma boa interação de música eletrônica com o rock alternativo da banda, que se mostra mais swingado do que nunca, e mais uma letra divertida com boas tiradas.

Por mais que haja alguns deslizes, o “Elektra” cumpre bem o seu objetivo, trazendo consigo uma banda experiente, conhecedora do jogo, com muito talento e consciência musical. Seguro quanto a sua aposta, o RPM se sente à vontade para explorar tudo que a tecnologia de hoje oferece quanto a sons e produção, não se afastando de sintetizadores extravagantes, que, bem alocados, só vêm a acrescentar ao som da banda. Vale lembrar que desde o seu álbum de estreia a banda flerta com sons eletrônicos, mas é com “Elektra” que, verdadeiramente, o RPM se concretiza como uma banda de eletro-rock.

“Vidro e Cola” é uma balada bem construída, que conta com mais uma boa letra e com mais uma produção certeira; com riffs melódicos e teclados mais discretos, é mais acessível, principalmente aos roqueiros mais conservadores. “Cassino Royale” é mais uma faixa com título cinematográfico, com sons interessantes e letra promíscua; mas, poderia ter sido deixada de lado, por ser muito menos criativa e de muito pior gosto que as demais faixas do álbum.

“Ela é Demais (Pra Mim)” só vem a concretizar o espírito dançante e sensual do RPM do século XXI, com um refrão minimista, letra simples (porém competentes), guitarra discreta (com seus riffs funk) e sintetizadores delirantes. Quando parece que o álbum não pode mais surpreender, chega “Ninfa”, com quase nada de rock, praticamente totalmente eletrônica. Quem diria que uma banda antiga, que já gravou músicas como “Revoluções Por Minuto”, faria canções para tocar em boates, fazendo dançar a geração do terceiro milênio? O mais interessante é que isso foi alcançado sem deixar de lado a essência da banda, havendo músicas mais românticas e cadenciadas para equilibrar os pesos.

“Santo Graal” dá notas finais ao “Elektra”, se mostrando como uma das melhores faixas; extremamente animada e dançante, tem uma letra que parece sintetizar tudo que ocorreu no álbum. “Use e abuse (da música)” canta Paulo Ricardo, e foi isso que o RPM fez; sem vergonha de se entregar ao século XXI, a banda oitentista se esbalda na música eletrônica, e sem deixar de lado suas qualidades de sempre.

Com o seu trabalho mais recente, o RPM acaba deixando claro que o passado é o passado. Os anos oitenta acabaram há muito tempo, bem como os sentimentos daquela época. Se “Revoluções Por Minuto” foi um produto de sua época, o mesmo pode ser dito do dançante “Elektra”, que, com inteligência e ousadia, cumpriu bem o seu dever, tornando o RPM não apenas uma banda de sucesso no passado, mas com capacidade de agitar muito ainda nos dias de hoje.

NOTA: 6,9

Track List:

01. Dois Olhos Verdes (P. Ricardo/Schiavon) [02:54]

02. Problema Seu (P. Ricardo/Schiavon) [03:31]

03. Muito Tudo (P. Ricardo/Schiavon/Pagni) [03:24]

04. Pessoa X (P. Ricardo/Schiavon) [02:42]

05. Deusa das Águas (P. Ricardo/Schiavon) [03:31]

06. Crepúsculo (P. Ricardo/Schiavon) [03:38]

07. Elektra (P. Ricardo/Schiavon) [03:07]

08. Vidro e Cola (P. Ricardo/Schiavon) [03:45]

09. Cassino Royale (P. Ricardo/Schiavon) [02:53]

10. Ela é Demais (Pra Mim) (P. Ricardo/Schiavon) [03:20]

11. Ninfa (P. Ricardo/Pagni) [02:51]

12. Santo Graal (P. Ricardo/Schiavon) [02:53]

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