1989: MM – Marisa Monte

Marisa Monte apareceu para o grande público em uma época em que a MPB estava carente de novos nomes. Nos anos oitenta a música brasileira viu o domínio das grandes bandas do rock nacional, e isso com certeza deixa saudade a todos que viveram a época. Mas a MPB é, realmente, a mais forte identidade musical do nosso país, e foi ótimo Marisa ter surgido para tapar um buraco.

Nada surge de repente, do nada, sem motivo nenhum… e Marisa é uma prova disso. Na infância, estudou canto, piano e bateria. Na adolescência, participou de um musical de Miguel Falabella e iniciou estudos em canto lírico. Aos dezenove anos, mudou-se para a Itália, onde estudou bel canto e iniciou sua carreira propriamente dita, cantando em bares. Uma dessas apresentações foi assistida pelo produtor Nelson Motta, que começou a dirigir a carreira da cantora após o retorno dela para o Brasil.

Bastou uma temporada de shows para Marisa chamar a atenção do público, e é claro, das gravadoras. E seu primeiro álbum não demorou a ser gravado, sendo lançado em 1989. Este procura fazer um retrato fiel das apresentações da cantora, com um repertório muito eclético, que, com a variância de estilos de música, explora todas as nuances do talento da cantora.

O álbum começa incrível com “Comida”, um dos clássicos dos Titãs, que na versão de Marisa, ganha uma nova roupagem totalmente densa, explorando de forma espetacular o incrível talento interpretativo da cantora. A segunda faixa, a bem mais tranquila “Bem Que Se Quis”, acabou se tornando um clássico da MPB; se trata de uma versão de Nelson Motta para a canção italiana “E Po’ Che Fa'”, de Pino Daniele, lindamente cantada por Marisa. Uma composição de Tim Maia dá o ar de sua graça na terceira faixa; “Chocolate” mostra um lado mais popular da interpretação de Marisa, com uma música mais simples, que inclusive flerta com “É Proibido Fumar”.

Mantendo o espírito eclético do álbum, “Ando Meio Desligado”, clássico dos Mutantes, aparece como quarta música; contém uma performance de Marisa que, comparada a de Rita Lee (em sua versão solo), se mostra muito mais técnica e dinâmica; algo incrível, pois não é todo dia que a performance de uma “iniciante” supera a de uma cantora já há muito tempo consagrada. A espetacular “Preciso Me Encontrar”, composta pelo sambista Candeia, dá ao álbum um ar bastante sofisticado, com uma interpretação certeira e de muito bom gosto, se mostrando um dos pontos mais fortes do MM.

“O Xote das Meninas”, clássico da música nordestina, volta a manifestar o quão dinâmica é Marisa Monte, capaz de interpretar com maestria músicas de estilos totalmente diferentes. Miar palavras não deve ser muito fácil, e assim fez Marisa em “Negro Gato”, que em sua voz, ganha um interessantíssimo ar de mistério noturno, que acabou combinando muito com a letra e a melodia da canção. “Lenda das Sereias, Rainha do Mar” faz o álbum se jogar completamente na música folclórica brasileira; essa alternância de clássicos (todos muito bem executados) faz o MM soar como uma compilação do mainstream de diferentes estilos e de diferentes épocas da música do nosso país. Não com essa intenção, é claro, pois a ideia é mostrar o ótimo e dinâmico talento da cantora.

E não é que Marisa incorporou até Carmen Miranda? Não que ela tenha usado chapéu de frutas, mas a interpretação de “South American Way”, inclusive mantendo o inglês sofrível da versão de Carmen, dá ao álbum um agradável clima de bom humor. Falando em inglês, nesse idioma são cantados as três últimas faixas do álbum.

A décima é a reggae “I Heard It Through the Grapevine”, deixando claro que Marisa realmente pode cantar qualquer coisa – praticamente, de Parabéns a Você à Aretha Franklin. A magnífica “Bess, You Is My Woman Now”, um jazz de muito bom gosto, com a participação do grupo Nouvelle Cuisine e do cantor Carlos Fernando Nogueira, volta a levar o álbum a uma viagem mais sofisticada, navegando por um dos mais clássicos mares da música norte-americana. “Speak Low”, contando com mais uma interpretação divina de Marisa, encerra o MM muito bem, fazendo-o soar ótimo e consistente do início ao fim. Um verdadeiro clássico da música brasileira.

MM é de uma surpreendente qualidade, ainda mais se tratando de um primeiro álbum. Foi uma aposta totalmente certeira, conseguindo abranger uma grande gama de ritmos, e fazendo valer perfeitamente a sua intenção. Em seu primeiro álbum, Marisa já se mostrou impecável, com performances que beiram à genialidade.

Com tantos elogios já ditos, apenas mais uma frase é necessária para uma conclusão: MM é de audição fundamental para todos que admiram a música do nosso país.

NOTA: 8,8

Track List:

01. Comida (Arnaldo Antunes/Sérgio Britto/Marcelo Frommer) [04:13]

02. Bem Que Se Quis (Pino Daniele/versão: Nelson Motta) [03:37]

03. Chocolate (Tim Maia) [03:17]

04. Ando Meio Desligado (Arnaldo Baptista/Sérgio Dias/Rita Lee) [03:00]

05. Preciso Me Encontrar (Candeia) [03:42]

06. O Xote das Meninas (Zé Dantas/Luiz Gonzaga) [04:05]

07. Negro Gato (Getúlio Cortes) [04:58]

08. Lenda das Sereias, Rainha do Mar (V. Dinoel/V. Mattos/A. Velloso) [04:10]

09. South American Way (Al Dubin/Jimmy McHugh) [01:51]

10. I Heard It Through the Grapevine (Barrett Strong/Norman Whitfield) [03:46]

11. Bess, You Is My Woman Now (Gershwin/Gershwin/Heyward) [05:10]

12. Speak Low (Ogden Nash/Kurt Weill) [03:26]

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