1963: Please Please Me – The Beatles

Escrever sobre os Beatles em um blog de música é como chover no molhado. Existem milhares de textos, com letras comentadas, análises profundas ou até mesmo filosóficas. Mas há de se concordar que todo esse destaque é mais do que merecido, pois John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr mudaram o mundo. Nunca haverá uma banda tão grande e de tamanho sucesso quanto os Beatles.

A música dos Beatles foi surgindo à medida que o rock n’ roll, vindo do outro lado do Atlântico, chegava até Liverpool e fazia a cabeça da garotada. John, Paul, George e Ringo cresceram ouvindo Elvis, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, e todos os grandes ídolos da primeira era do rock, e dali mesmo surgiram as principais influências da banda.

Antes do “Please Please Me”, os Beatles tinham lançado apenas dois compactos, em 1962; “Love Me Do”/”P.S. I Love You”, em setembro, e “Please Please Me”/”Ask Me Why”, em novembro. Ambos os singles foram um grande sucesso, vindo então a ideia de gravar o primeiro álbum da banda. E isso foi feito em seções que duraram apenas pouco mais de nove horas, e no mesmo dia; em 13 de fevereiro de 1963, os quatro garotos de Liverpool e o produtor George Martin se reuniram no Abbey Road Studios, e lá fizeram o primeiro álbum da banda.

Não era algo muito recorrente, naquela época, bandas gravarem composições próprias e tocarem todos os instrumentos de todas as músicas de um álbum. Mas os Beatles, obviamente, não faziam parte de uma banda comum, e o êxito do álbum já começa na intenção (e na coragem) de se fazer algo próprio e autêntico. Das catorze faixas do álbum, apenas seis eram covers – algo louvável para uma banda iniciante daquela época.

A primeira faixa é “I Saw Her Standing There”, se iniciando com um “one, two, three, four” dito por McCartney; a canção é creditada a Paul e John, mas a ideia inicial da composição é de Paul, oriunda de um simples verso espontâneo; a estrutura da música escancara uma grande influência do rock dos anos cinquenta (algo recorrente no álbum), com o riff influenciado pela canção “I’m Talking About You”, de Chuck Berry. Segue então “Misery”, que tinha sido composta inicialmente para Helen Shapiro, mas acabara recusada pelo empresário da cantora; com uma bela harmonização vocal, a música faz o álbum continuar com tudo.

“Anna (Go to Him)” é o primeiro cover do álbum, incluída por se tratar de uma das músicas preferidas de John; apresenta um vocal caprichadíssimo por parte de Lennon, e um certeiro instrumental que não deixa a desejar. A seguinte,”Chains”, é de autoria do (até então) casal Gerry Goffin e Carole King, e fazia parte do repertório dos shows dos Beatles; uma boa música, que segue mostrado a banda como um produto de sua época. A quinta, “Boys”, dá mais destaque a um dos pontos fortes do álbum: Ringo Starr, que com uma batida mais rápida e marcada, responsabilizou-se por grande parte da identidade sonora inicial da banda.

Em “Ask Me Why” o grande destaque é, novamente, a belíssima harmonização vocal, que mantém o álbum com uma absurda consistência, levando-se em consideração uma banda iniciante. A faixa-título, um single de êxito comercial e que encerra o Lado A do álbum, segundo o próprio John Lennon (que a compôs), “era uma combinação de Roy Orbison com Bing Crosby. Eu me lembro do dia que escrevi a canção, eu ouvi Roy Orbison fazendo “Only The Lonely” na rádio. Eu também estava intrigado com as palavras de Bing Crosby em uma canção “Please lend a little ear to my pleas”. O duplo sentido para a palavra ‘please'”

O Lado B se inicia com o primeiro single lançado pela banda. “Love Me Do”, uma canção romântica simples e arrebatadora, escrita por Paul no final dos anos cinquenta, foi o primeiro grande sucesso da banda, e carrega um ar nostálgico todo especial, muito em razão de Martin: “Eu escolhi ‘Love Me Do’ por causa do som de gaita”, disse o produtor. “P.S. I Love You” é a outra música do primeiro compacto da banda, também composta basicamente por McCartney; outro número bastante romântico, transborda de influência dos The Everly Brothers, assim como a faixa anterior; a curiosidade é que quem tocou bateria nessas duas faixas foi Andy White, tendo Ringo ficado com tamborins e maracas.

 “Baby It’s You”, uma ótima música (composta por Burt Bacharach), faz o álbum retornar para a seção do dia 13 de fevereiro de 1963; contém um instrumental muito bem encaixado e um ótimo arranjo vocal. George canta a faixa 13, “Do You Want to Know a Secret?”, canção escrita por Lennon e McCartney e inspirada em um tema do desenho animado “Branca de Neve e Os Sete Anões”; a decisão de dá-la para Harrison cantar, segundo John, é que se tratava de uma música de apenas três notas, e na época George não era o melhor dos cantores. “Taste of Honey” é outro cover que era utilizado pelos Beatles em seus shows e foi incluído no álbum; o destaque fica para o instrumental de bastante bom gosto.

A penúltima é a ótima “There’s a Place”, onde o som da gaita mais uma vez cria um clima de nostalgia; John e Paul se inspiraram em Leonard Bernstein para compô-la. Para encerrar um álbum histórico, nada melhor que uma das melhores gravações da história: “Twist and Shout” é um cover, mas uma das mais conhecidas músicas gravadas pelos Beatles, amparada pela clássica performance rouca e agressiva de John Lennon – que estava com gripe no dia das gravações; por se tratar da música que mais exigia do vocal, foi deixada para ser gravada por último, e dos dois takes tocados, o primeiro foi aproveitado, pois no segundo Lennon já estava sem voz.

Era comum, naquela época, um baixo orçamento para bandas iniciantes. Com os Beatles não foi diferente; dispondo de pouco dinheiro e pouca tecnologia, o álbum acabou se mostrando bastante simples, gravado em apenas dois canais: um para o instrumental e o outro para os vocais. Mas a intenção de George Martin era justamente que o álbum soasse como as apresentações ao-vivo da banda, tendo inclusive a ideia inicial de gravá-lo no próprio Cavern Club; ideia que foi deixada de lado após se observar a má acústica do local.

A intenção de Martin acabou dando certo: “Please Please Me” realmente soa como um “álbum ao-vivo em estúdio”, o que já o torna um verdadeiro documento histórico. Apesar de ser basicamente um álbum de influências, de uma banda ainda sem um estilo pessoal, a qualidade instrumental e vocal dos Beatles é o que mais chama a atenção.

“Please Please Me” talvez seja, enfim, um dos álbuns que melhor agregou influências em toda a história da música. Uma gravação ímpar e histórica, um produto impecável de sua época.

NOTA: 9,7

Track List:

01. I Saw Her Standing There (Lennon/McCartney) [02:54]

02. Misery (Lennon/McCartney) [01:49]

03. Anna (Go to Him) (Alexander) [02:57]

04. Chains (Goffin/King) [02:26]

05. Boys (Dixon/Farrell) [02:57]

06. Ask Me Why (Lennon/McCartney) [02:26]

07. Please Please Me (Lennon/McCartney) [02:03]

08. Love Me Do (Lennon/McCartney) [02:23]

09. P.S. I Love You (Lennon/McCartney) [02:04]

10. Baby It’s You (David/Williams/Bacharach) [02:40]

11. Do You Want to Know a Secret? (Lennon/McCartney) [01:59]

12. Taste of Honey (Scott/Marlow) [02:05]

13. There’s A Place (Lennon/McCartney) [01:51]

14. Twist and Shout (Medley/Russell) [02:37]

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