1956: Elvis Presley – Elvis Presley

Por: Renan Pereira

Espetacular, ainda soando vívida quase sessenta anos depois de seu lançamento, a estreia de Elvis não é somente um dos momentos mais importantes da música no século XX, mas também um dos melhores registros de rockabilly da história. O álbum “Elvis Presley” é, afinal, um ponto de destaque na vasta e rica discografia do rei do rock, contendo algumas das melhores interpretações de Elvis na primeira fase de sua carreira e, sem dúvida, o melhor track list de seus primeiros discos.

Mais do que mostrar toda a versatilidade e genialidade de um dos maiores (senão o maior) intérprete de todos os tempos, o álbum procurou trabalhar, incansavelmente, para construir um ícone. Já na capa do disco, considerada pelos críticos como uma das melhores de todos os tempos (não por ser incrivelmente bela, mas por marcar perfeitamente o registro, praticamente fundindo som e imagem), a ideia de criar uma estrela da música é evidenciada: buscou-se, desde o início, transformar Elvis Presley em uma espécie de líder de uma geração irrequieta, formada por jovens que tentavam se libertar das amarras que os prendiam aos antigos costumes. Da country music e do R&B acabou surgindo, enfim, o rockabilly, o ritmo dançante e “barulhento” que marcou a segunda metade dos anos cinquenta e a vida de muitos jovens da época, e que contribuiu, de forma gigantesca, para a obtenção do que hoje é simplesmente chamado de “rock”.

Tolo é quem tenta diminuir a carreira de Elvis Presley por ele não ser um compositor. Sim, durante todos os anos em que esteve na ativa, poucas vezes (raríssimas, na verdade) o Rei do Rock cantou músicas de sua autoria, mas o que isso importa? Elvis fazia das músicas de outros seus próprios números, únicos e insuperáveis, transformando cada canção que interpretava em sua, em um trabalho interpretativo quase de composição; sim, ele compunha com a voz. Dentre esses casos, que tal falarmos de “Blue Suede Shoes”, clássico de Carl Perkins, e da famigerada “Tutti Frutti”, que marcaram época na voz de Elvis? Um Elvis ainda bem jovem, recém chegado à casa dos vinte anos, mas com uma maturidade interpretativa invejável a qualquer um – se portando, enfim, como o artista perfeito sonhado pelas gravadoras: o tal do “branco com voz de negro”.

A faixa inicial do álbum é a já citada “Blue Suede Shoes”, de Carl Perkins. Elvis, como em todas suas versões, dá uma nova cara à música, que soa viva como nunca, casando voz e instrumentos com uma pureza que afasta do mais sisudo dos críticos qualquer dúvida sobre a sinceridade do artista. O instrumental, aliás, também é um grande destaque nesse álbum, sendo executado, em todas as faixas, de forma perfeita. Para tanto, um batalhão de músicos competentes, como Scotty Moore e Chet Atkins (guitarristas que frequentemente figuram nas listas dos melhores da história), acabou sendo recrutado, executando bases perfeitas para Elvis Presley brilhar à vontade, e ajudando, imensamente, a criar o tal “ícone”.

Quem pensa que as estratégias de marketing são maléficas para a música também está possivelmente bem enganado. A carreira de Elvis (assim como também a dos Beatles, em seu início) foi altamente afetada pelas estratégias tomadas pelos empresários que o cercavam – se não tivesse rolado propina, talvez este álbum, por exemplo, que hoje em dia é considerado um clássico do rock, não tivesse sido sequer gravado. O fato é que, em 1955, Elvis já havia emplacado alguns singles comercialmente bem-sucedidos, mas ainda não tinha contato com os cabeças da indústria fonográfica. Ciente disso, o empresário de Elvis na época, Colonel Tom Parker, forçou contato, através de outro afiliado seu (Eddy Arnold), com o chefão da divisão de country e R&B da RCA, Steve Sholes. Este, por sua vez, comprou por 35 mil dólares o contato de Sam Phillips, uma das pessoas mais influentes da indústria fonográfica. O resultado é que, a partir daí, Elvis não somente teve o total apoio da gravadora, como se tornou o queridinho dela; afinal, em um retorno esplêndido, o single “Heartbreak Hotel” e este álbum em questão deram um lucro de mais de um milhão de dólares à RCA, um recorde até então.

Continuando com o track list do disco, a segunda faixa é “I’m Counting on You”, canção romântica de Don Robertson, perfeitamente interpretada por Elvis, um número de puro sentimento em que é possível ouvir (assim como em outras gravações do início de sua carreira) a voz de Elvis em um tom diferente, onde a jovialidade e até certos resquícios de adolescência podem ser percebidos; algo normal para um garoto de vinte anos, mas que, no caso de Elvis (que não era um simples garoto) ajuda a acrescentar pureza à maturidade de suas interpretações. A terceira é “I Got A Woman”, clássico do grande Ray Charles, que soa diferente (e até mesmo melhor) na versão de Elvis – o que não desqualifica a versão de Charles, até porque soar superior às originais sempre foi uma constante das regravações do rei do rock.

Em “One-Sided Love Affair”, uma ótima música de Bill Campbell (em que os arranjos são um grande destaque), Elvis utiliza, da melhor forma possível, sua performance praticamente “teatral”, soltando o vozeirão à vontade. “I Love You Because” segue, mais romântica e bucólica impossível, e encerrando o Lado A do álbum, “Just Because” parece dar mais destaque a Chet Atkins do que ao prórpio Elvis, até mesmo por ser uma canção onde a guitarra acústica é o grande destaque – o que não é nada ruim, pois Atkins era um primoroso instrumentista. Como já dito, os demais músicos presentes nas gravações ajudaram imensamente a construir o resultado final do registro, e por mais genial que fosse, Elvis não conseguiria fazer tudo sozinho.

Da primeira faixa do Lado B nem se precisa falar muito; a pulsante versão de Elvis para “Tutti Frutti” se tornou um dos maiores clássicos da história da música, uma canção que, mesmo tanto tempo depois de sua gravação, ainda mostra-se como um convite irrecusável para a dança. Com um romantismo intenso, a refinada “Trying to Get to You” continua a elevar o disco a um alto nível, não deixando a peteca cair. Já “I’m Gonna Sit Right Down and Cry (Over You)” é uma canção um pouco mais simples, mas nem por isso pior; números mais simplórios sempre foram um prato cheio para Elvis, que sempre se sentiu à vontade para se destacar, livre para fazer uso de toda sua habilidade vocal sem moderação. A faixa seguinte, “I’ll Never Let You Go (Lil’ Darlin’)”, não é uma música incrível, iniciando-se chatinha, mas felizmente crescendo à medida em que o instrumental e o vocal de Elvis vão acrescentando poder à estrutura extremamente simples da faixa.

As intenções comerciais do disco são escancaradas pela presença de “Blue Moon”, um clássico da música norte-americana, em seu track list, sendo o que hoje em dia se chamaria de “aposta fácil”. Porém, a incrível qualidade interpretativa de Elvis chuta para a linha de fundo qualquer sinal de simples “aproveitamento”… Afinal de contas, a música é ótima, e na voz de Elvis quase tudo soava ainda melhor. Por mais que destoe um pouco no álbum, a décima primeira faixa é, enfim, um número válido, conseguindo casar qualidade e comerciabilidade.

Fazendo o disco se encerrar de maneira deliciosa, deixando o ouvinte com aquele tão conhecido “sabor de quero mais”, “Money Honey” é um número final perfeito, um clássico de Jesse Stone que é majestosamente interpretado por Elvis e pela sua banda, deixando, no fim, a melhor impressão possível. O disco, como um todo, pode até não ser perfeito, mas apresenta um resultado que talvez nem o mais entusiasmado dos empresários da RCA esperava: muito mais do que vendável, a música de Elvis Presley se mostrava de imenso bom-gosto, bem como o artista rumava para ser não apenas o ícone de uma geração… Ainda em seus primeiros passos na música, Elvis já deixava claro que seu nome seria lembrado para sempre.

Elvis Presley ainda aprimoraria muito mais sua técnica interpretativa nos trabalhos que se seguiriam, e talvez essa seja a grande graça ao se conferir a estreia do grande rei do rock. Aqui, suas performances conseguem soar joviais como nunca, carregadas de um aspecto vívido como o clima ameno do início de uma manhã de outono, repleta de cerração e bucolismo. Um cenário lindo, cativante, que só é reforçado pelo grande conjunto de canções que o constrói. O primeiro álbum de Elvis Presley é, enfim, mais do que um documento histórico, um registro imperdível para os amantes da boa música.

NOTA: 9,5

Track List:

01. Blue Suede Shoes (Carl Perkins) [01:58]

02. I’m Counting on You (Don Robertson) [02:24]

03. I Got A Woman (Ray Charles/Renald Richard) [02:23]

04. One-Sided Love Affair (Bill Campell) [02:42]

05. I Love You Because (Leon Payne) [02:29]

06. Just Because (Sydney Robin/Bob Shelton/Joe Shelton) [02:32]

07. Tutti Frutti (Dorothy LaBostrie/Richard Penniman) [01:58]

08. Trying to Get to You (Rose Marie McCoy/Margie Singleton) [02:31]

09. I’m Gonna Sit Right Down and Cry (Over You) (H. Biggs/J. Thomas) [02:01]

10. ‘ll Never Let You Go (Lil’ Darlin’) (Jimmy Wakely) [02:24]

11. Blue Moon (Richard Rodgers/Lorenz Hart) [02:31]

12. Money Honey (Jesse Stone) [02:34]

Download

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s